Zeca treme. Há uma convulsão na Avenida Paulista pouco antes das seis da tarde e os automóveis parecem voar... Zeca bate a mão nos bolsos em busca dos comprimidos, mas os bolsos estão vazios e suas pernas tremem. Assim que o sinal abre, Zeca atravessa a avenida. "Corra que já nos viram", pensa, olhando os automóveis que correm em sua direção e repetindo uma velha piada; mas a essa altura, já não vê graça na graça. Não tem medo. "Não que tenha medo", repete.
Zeca está em pânico.
Ao vê-lo assim, espantado entre avenidas, não se imagina, mas eis o que Zeca pensa: "Largarei (vou largar) tudo-de-tudo, romperei (vou romper) a insensatez do presente, vomitarei o passado". Essa forma retórica é comum a Zeca - embora, como veremos, quase ninguém suspeite. Ele pensa no Caribe. "Ah, o sol, o mar, mulheres e a solidão das ilhas!!!" Imagina-se só, em uma praia paradisíaca de Cuba. "Catso, que absurdo!...", recompõe-se, "... em Cuba?!" Mas é exatamente o que pensa quando chega, finalmente, ao seu refúgio.
A rigor, isso não deveria nem de longe ser chamado de refúgio. É aqui que Zeca costuma buscar socorro. E por mais que alguém tente atrapalhar seus passos ele sabe que chegará. Chegará ao seu refúgio cruzando carros que voam (os automóveis parecem voar...), sinais, antenas de TV... e a multidão. Isso sim! é o mais difícil e Zeca já conseguiu.
Está diante da porta de metal e vidro. Respira fundo, acalma o coração e toca o interfone.
SLAK. A porta se abre e uma onda de calma e de paz o invade. O corredor do antigo prédio, uma destas construções que resistiram ao avanço dos arranha-céus em plena Avenida Paulista, o acalma como nada neste mundo. E, ao subir as escadas, Zeca alivia-se definitivamente.
Portanto, ele já venceu o pânico no momento em que torce a maçaneta da porta. A placa de bronze polido anuncia: Dr. Edélsio Tavares. Psiquiatra.
Zeca escancara a porta e entra.
A secretária assusta-se com o movimento brusco de sua chegada na sala, dá um pulo na cadeira, mas ao perceber de quem se trata torce o nariz e põe-se a lixar novamente as unhas.
O vermelho daquelas unhas derrete o coração de Zeca. Mas quando seus olhos encontram os dela a paixão se transforma em ódio. "A que ponto, sua vaca, fizestes decair o vermelho!", pensa, mas não diz.
Só então, vendo-o parado ali em silêncio, na soleira da porta por longos segundos, ela levanta os olhos:
- Você aqui, Zeca, de novo? Sem hora marcada, sem aviso?
- Como... sem aviso? Estou mal, preciso ver o doutor.
- De novo, Zeca!, no fim do expediente!?
Zeca odeia aquele relógio dourado, quase escondido entre as dobras da gordura do pulso, para onde ela aponta enquanto fala. Mas como ela suspira e os suspiros fazem tremelicar os seios por baixo do cetim da blusa, é nesta parte exuberante de sua anatomia que Zeca prega os olhos, enquanto fala.
- É... urgente...
A ela não passa desapercebida a direção do olhar de Zeca. Sem saber, ele atingira o ponto alto (e ainda firme) de sua vaidade. E só por isso a secretária concede: vira-se lentamente na cadeira, abre a gaveta do arquivo de metal, às suas costas, com tamanho esforço que as pernas se levantam do assoalho e pairam inúteis no ar. Ela deixa a lixa de unhas na gaveta aberta e volta-se, com pacienência exasperante, ao fichário acrílico azul sobre a mesa. "Pernóstica", conclui Zeca. Mas logo se policia: "Ela vai ler meus pensamentos".
A secretária demora a encontrar entre as fichas o prontuário de Zeca. Quando enfim o encontra, percorre-o linha por linha, e são muitas linhas, com a unha retorcida do dedinho. “... pronto, leu meus pensamentos”, imagina Zeca. Teme que ela insista em impedi-lo de falar com Edélsio.
- E sem hora marcada, meu filho?
- É urgente – pede, gentil, com os olhar novamente cravado nos seios, que se empinaram soberbos sob o cetim.
O olhar de Zeca a convence. Ela tira o interfone do gancho e digita duas, três vezes o mesmo número, sem sucesso. Mas, agora, isso já não assusta Zeca: pelas janelas do consultório ele contempla uma interminável floresta. Os prédios, as antenas de TV, a fuligem dos carros, tudo, tudo desapareceu e o que ele vê são imensos jequitibás, mognos, cerejeiras, e uma vegetação miúda que cobre o solo e por onde correm macacos, pacas, tatus e cotias.
Zeca sonha, sentado na poltrona da sala de espera do consultório. Ele escuta trinados de aves e seu coração retoma, aos poucos, o ritmo normal.
Do outro lado do interfone, entre montanhas de bibelôs freudianos e pós-freudianos, Dr. Edélsio prepara-se para encerrar o expediente. Diante do espelho, paramenta-se para voltar a ser ele. Desabotoa o velho jaleco branco e, a cada botão que abre, sente-se novamente como o Edélsio de sempre, o velho Edélsio, sem pacientes, sem zecas que o importunam com suas tragédias psíquicas, sem egos inflados sobre o divã, sem ids, superegos e mães devassas.
Edélsio sobe as calças até acima do umbigo. Dá o laço num cordão que, agora, utiliza no lugar do elegante cinto de couro marrom com o qual costuma receber seus pacientes. O cordão, apertado, avoluma seu ventre e ele, satisfeito, o projeta ainda mais para fora. Encolhe o peito e abre as pernas. Acende o cigarro de palha e, agora sim, finalmente ele, verdadeiramente ele, o Edélsio real, feliz, contempla as botinas novas diante do espelho.
As vibrações fortes do tabaco goiano que Edélsio fuma atraíram os espíritos da floresta, índios, caboclos de todas as ordens e legiões. Dezenas de entidades já o rodeiam, mas neste exato momento o interfone toca.
- Caralho, o Zeca, agora? - atende Edélsio.
- Diz que é urgente, doutor.
- Ai-ai, manda entrar - consente.
Edélsio apaga o cigarro de palha, ajeita as calças, cobre as botinas e veste o velho jaleco pré-freudiano. Volta a ser o Dr. Edélsio e no seu mais profundo inconsciente uma voz se rebela: "Me cago em Freud".
Sempre que pacientes novos e antigos chegam ao consultório, Edélsio, com gentileza mecânica, aponta-lhes a sala e concede que escolham deitar-se no divã tradicional ou numa majestosa rede sergipana. A rede, ornada com rendas que caem até quase o assoalho, está estendida no canto mais nobre e iluminado do consultório, debaixo da janela e ao lado da parede onde repousam os troféus de caça de Edélsio – cabeças empalhadas de veados, leões africanos, onças e jaguatiricas.
Zeca escolhe a rede.
Zeca pensa que apenas ele naquele momento sabe a razão da escolha:deitado na rede não vê os vidros de remédios, as seringas, perfumes, florais, demências simpáticas e parassimpáticas que repousam, tônicas - elixires de fontoura - tristes tigres no armário branco de metal escancarado na frente do divã. Hoje não!, ele não quer ver estas coisas. “Muchas gracias”, pensa, mas não fala.
Mas o que Zeca não sabe é que outras lógicas norteiam o pensamento de Edélsio. E estas lógicas já identificaram os motivos que levaram Zeca a escolher a rede.
Aliás, naquele momento, Edélsio estava certo de que Zeca agiria assim. E, por isso, diante da confirmação, não pode conter o sorriso quase imperceptível. "Memories, memories, memories", concluiu Edélsio.
- Doutor, não dê ouvidos à maldade alheia ...
- Ora, meu filho, não seja idiota.
- ... e creia...
- Pare com isso, jovem. Se vives só e se te sentes só, é porque estais obliterado por esta crença de que o mundo que ocorre em seu interior é o mundo real.
- Doutor, creia...
- Ora, Zeca, por Deus!
- Creia, doutor, não são ilusões, são fatos.
- O fato, meu filho, é o fato. E a ilusão, ilusão. Mas nenhum dos dois é o que parece.
- Doutor, creia, está acontecendo comigo e é real. São fatos tangíveis.
- Já sei, já sei... Como a história de sua tia!!!
Só agora Zeca percebe que se equivocou ao ter escolhido a rede. Mas já não pode voltar atrás. Tenta encontrar, nos fios que se movem, um apoio sólido para erguer-se, mas a rede movimenta-se sob seu corpo como um colchão de gelatina.
- Não é nada disso, é sério, doutor. Quero falar das coisas de agora, de hoje, de ontem. Estão acontecendo comigo neste momento. Não falo de minha tia, em nada que tenha a ver com a história de minha tia.
Mas ao ouvir as próprias palavras ressoando nas paredes do consultório, o coração de Zeca é tolhido por uma nuvem sombria:
- ... mas, como assim, doutor? Porque falas com este desprezo da história de minha tia? Aquilo também foi real, doutor. E muito grave!
- Hããã... – impacienta-se Edélsio.
- Doutor, pelo amor de Deus, não fale assim. Aquele foi o dia em que eu morri!
O DIA EM QUE ZECA MORREU
Na casa principal da fazenda, Zeca, ainda criança, está deitada na cama. À sua cabeceira, ao lado do médico que ausculta, a mãe, entrevada em angústia, torce um lenço entre as mãos.
- É grave, doutor?
- É grave, senhora.
Na sala, o pai, austero, relógio no bolso do colete de casimira inglesa, a tudo acompanha, em silêncio.
Sucedem-se os dias no interior daquela casa outrora iluminada pela alegria. A doença de Zeca entristecera a todos.
No meio daquela sucessão de dores, apenas a velha tia mantém um resto de lucidez. Arqueada, caminhando com seus passinhos rápidos, ela aproxima-se, ora do pai, ora da mãe:
- Criaturas, em nome da Virgem, permitam que eu o leve. É vosso filho, mas eu sei como curá-lo.
Ao ouví-la, sempre em silêncio, a mãe estremece e lágrimas afloram em seus olhos. O pai toma-se de irritação e enxota a velha irmã. Manda-a, longe dali, varrer terraços, conduzir cozinhas.
A mãe, convicta da transitoriedade do mal de Zeca, exasperava-se com as insistências da tia e remoía uma raiva surda por trás da face terna e sofredora.
Pobre mãe! Quase uivava de dor quando, no leito, Zeca insistia no hábito adquirido naqueles dias. Ele cruzava as mãozinhas sobre o peito e, de olhar perdido, punha-se a contemplar o vazio. "Não pegue modos de cadáver, meu filho. Pára com isso", gritava ela.
E, célere, ia até o leito e descruzava as mãos do menino.
Mas, certa noite, enquanto Zeca dormia, a mãe, velando, descobriu que um espelho colocado sobre os seus lábios já não registrava o sopro da vida. A notícia suspendeu também a respiração dos vivos. E o médico, chamado às pressas e após sumário exame, pediu na sala a presença dos pais. Desenganou, com doces palavras, a vida do pequeno. De modo que, quando a mãe concentrou toda a sua dor num uivo infinito e o pai, em seguida, acudiu ao seu desmaio, a tia decidiu agir. Furtiva, invadiu o aposento abandonado pelos vivos, onde apenas Zeca repousava, mãos cruzadas sobre o peito.
A tia tomou o menino nos braços e fugiu com ele pela porta dos fundos. Atravessou trilhas, picadas, embrenhou-se por carreadores escuros no meio do mato. Ali, ninguém sabe o quê - quem sabe a lua, quem sabe o cheiro das gabirobas ou os demônios da noite - fizeram com que Zeca abrisse os olhos. A velha tia, satisfeita pois já não aguentava carregá-lo nos braços, colocou-o no chão e neste momento um calafrio percorreu a espinha de Zeca.
- Tia, o que foi isso?
- Não é nada não, Zeca, é que você morreu.
Cruzaram ainda alguns caminhos feitos a facão no interior da mata e finalmente chegaram. Era uma casa mais pobre do que todas as pobrezas já vistas. Lá dentro, uma velha suspendeu imediatamente suas orações ao ver a criança que entrava. Com os olhos semicerrados olhou os visitantes e rápido compreendeu o que se passara. Levantou-se, retirou de um vaso, aos pés do altar, ramos de alecrim banhados em malva. Apontou uma cadeira para Zeca e ele, branco como cera à luz das lamparinas de querosene, sentou-se. A velha o benzeu demoradamente, com a exatidão de seus ramos sagrados.
Tempos depois, ainda antes que o sol raiasse, quando a cor já voltara às faces de Zeca, a velha pediu que a tia o levasse. Deste modo, já tranquilos, cada qual por particular razão, sobrinho e tia retornaram em silêncio na direção da fazenda.
O coração de Zeca batia em paz, mas descompassou-se ao chegar em casa. Em uma mesa, no centro da sala, cercado por paramentos, coroas de flores e velas, repousava um caixãozinho de defunto, branco e ornado com enfeites dourados.
Foi naquele momento que o pânico, pela primeira vez, tomou conta da vida de Zeca.
Mas quando todos os que estavam na sala viram Zeca, corado e são na soleira da porta, caíram em prantos e o tomaram nos braços. "Filho, filho, que graça de Deus restituiu-te a vida?".
E assim, tomado definitivamente pelo pânico, Zeca foi envolvido pela multidão de vizinhos, parentes e amigos.
Alguém teve o inútil cuidado de retirar da sala os paramentos de seu velório.
- ... então, doutor, era assim que faziam comigo, espremiam, apertavam... como se eu tivesse voltado àquela hora do túmulo. E, de certa forma, era verdade. Voltei do túmulo, doutor!, voltei do inferno. Aquele foi o dia em que eu morri.
- Hã-rã... - Edélsio batia repetidamente a caneta esferográfica na perna: " Quosque tandem, filho meu, abusate patientia nostra?". Em seguida, encenando uma falsa calma, levantou-se, apontou para o relógio com o dedo indicador e disse:
- Meu jovem, sua hora acabou.
Foi assim que, definitivamente, o pânico tomou conta de nosso herói naquele final de tarde:
- Porra, doutor, quem você pensa que sou? Não vim aqui para contar de novo a história de minha morte. Não é esse, agora, o problema. Não, doutor, não me iluda. Eu fico! Tenho muito a dizer e não vou embora.
O silêncio absoluto que se fez no consultório cristalizou-se como uma pedra de gelo acima da rede onde Zeca continuava deitado. Ouvia-se apenas a respiração compassada de Edélsio. Ele arrancou o jaleco e contornou a rede:
- Sua hora acabou, delinqüente.
- Mas como, doutor, não foi disso que eu vim falar.
- Sua hora acabou, meu filho, - Edélsio dirigiu-se vagarosamente ao armário branco e tirou de lá um frasco esverdeado e uma gigantesca seringa.
Ao ver aqueles instrumentos nas mãos de Edélsio, Zeca começou a tremer e o sangue fugiu de suas faces.
- Preciso falar, doutor. Preciso falar. As coisas voltaram a acontecer ontem e temo que se repitam assim que eu pisar a rua, - gritava Zeca, envolvido pelo pânico.
Mas Edélsio já não lhe dava ouvidos: acabara de encher a seringa com um líquido verde e reluzente. E foi assim, com seringa em riste, que avançou sobre Zeca.
Diante da ira de Edélsio, Zeca sabe que não tem escolha. Levanta-se da rede, assustado, e caminha rápido até a porta.
A paciência de Edélsio esgotara-se. Zeca vê e sabe. Apressa o passo e tudo o que lhe resta agora é fugir da seringa e das drogas verdes. Sua mão direita, a do relógio, atinge a maçaneta da porta, quando um zumbido de zarabatana passa rente ao seu ouvido. Ele olha apavorado a seringa cravada na porta como uma seta que atingiu o alvo. Vira-se, completamente em pânico, e ali, às suas costas, o braço de Edélsio ainda permanece no ar, firme: "Um tiro certeiro", regozija-se o doutor.
Edélsio sorri:
- Sua hora acabou, meu filho. Sua hora acabou. Te-nha sem-pre isso em mente, - e, ainda sorrindo, ele enfia a mão em um dos armários e tira de lá um frasco de rótulo simples, recheado de comprimidos brancos.
Zeca sabe do que se trata. Caminha até Edélsio, agarra o frasco e sua mão já não treme. Pega-o e sai agradecido, com passos decididos, pelo único caminho possível: o da porta.
A partir deste momento Zeca não está mais só. Bate a mão no bolso e sente a solidez cilíndrica do vidro de comprimidos. É por isso que sorri quando pisa de novo a rua. A noite cai mas já não há medo no coração de Zeca. Ele atravessa a avenida e chega na rua transversal, onde deixou estacionado o velho automóvel em frangalhos. Enfia a chave no trinco, um ritual sem lógica já que o trinco, quebrado, não fecharia nem que ele quisesse.
Rodando neste automóvel sem trincos, que balança e tosse, Zeca finalmente chega a seu gueto, ou melhor, sua casa, seu beco.
Quando se mudou ainda muito jovem para São Paulo em busca da cura para a doença que o levou àquela morte remota e também outras curas para males oriundos deste, Zeca rodou casas e prédios, vilas, bairros, periferias e centros, sucessivamente, mês a mês, procurando uma morada. Até que um dia encontrou este gueto e, desde então, só nele (ou no consultório do Dr. Edélsio) sentia-se seguro.
Na verdade, a casa de Zeca está longe de ser um gueto no sentido habitual que se dá à palavra. Zeca, certamente embalado por imagens de antigos filmes, é que insiste em chamá-lo assim. A idéia de viver num gueto na cidade grande talvez o transporte para sonhos nova-iorquinos. São doze casas ao redor de um pátio, doze, rodeando o contorno de um jardim, em alexandrinos quase perfeitos.
O gueto de Zeca parece às vezes tão distante dos prédios da cidade, mas isso é só aparência. A cidade o invade e o envolve. Centenas de janelas o observam. Há horas exatas em que o mesmo som do mesmo canal de TV invade sua casa, num gigantesco coral de tons e semitons eletrônicos.
Esta proximidade distante é que faz com que só ali, em seu gueto, Zeca sinta sua pessoal existência em meio à impessoalidade dos prédios e dos automóveis.
E assim era a rotina de Zeca.
Do gueto para o trabalho, do trabalho para o consultório, do consultório para o gueto.
Mas, naquela noite, quando saiu do consultório de Edélsio com o vidro de remédios no bolso, a rotina de Zeca seria mais uma vez estilhaçada. Era esta a razão de seu pânico.
As sombras haviam começado a estilhaçar a rotina de Zeca há seis meses e se repetiam, sem controle, sem hora marcada, sem que pudesse prever. “Se pudesse prevê-las”, pensava ele, “as incorporaria de alguma forma em uma outra rotina”.
Nas noites anteriores, desde há muito, Zeca repetia sua rotina infalível. Chegava no gueto, estacionava o carro no pátio, pegava a bolsa, os livros e papéis que sempre ficavam no banco traseiro, fechava à duras penas o vidro e saía do automóvel.
Toda a noite, ao chegar nesta parte de sua rotina, ele ainda finge que não a viu, mas sabe que Berta está ali, na janela do primeiro andar do segundo sobrado, espiando sua chegada.
Berta o espia, como espia todos os outros no gueto, até o último que chega no final da madrugada. Zeca sabe disso, mas não pode evitar. Quando vê Berta, seu coração dispara.
E como sabe que ela espia, Zeca estufa o peito, encolhe a barriga. Caminha até o ponto mais próximo da janela de Berta e finge ainda que não a viu. Só quando sabe que está a menos de três metros do olhar de Berta, volta lentamente a cabeça, cuida para não tropeçar na sarjeta da calçada e então - momento culminante de sua trajetória, ou rotina, diária - prega os olhos nas pupilas esverdeadas de Berta e a cumprimenta com um aceno de mão:
- Boa noite.
Depois, caminha até sua casa - são apenas mais dez passos - sem olhar para trás. Talvez assobie, entoe uma canção, pois este momento é como cruzar um abismo. E pronto. Aí abrirá a porta com o coração disparado e, mais dois passos depois, jogado no sofá da sala, estará finalmente a salvo.
Mas, nesta noite, tudo foi diferente.
Quando Zeca chegou perto da janela de Berta e olhou para cima, não era ela quem estava lá, mas a sombra, a maldita sombra que o acompanhava e torturava nos últimos seis meses.
Desenho 1 - A janela de Berta está com a cortina fechada. Lá dentro as luzes estão acesas, de modo que uma sombra chinesa projeta-se na cortina. A sombra mostra a imagem de alguém agarrando uma mulher e prestes a golpeá-la com uma faca.
--- Caro leitor, o desenho abaixo é apenas pra você imaginar como eram as sombras que assombravam o nosso querido Zeca. A imagem real é aquela que está descrita acima. Infelizmente, não consegui ainda um desenhista para ilustrar este livro, então, plis, tenho que exigir este esforço da imaginação dos meus queridos leitores (ou do querido leitor, você). Perdón!!!
domingo, 6 de setembro de 2009
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