É bom que lembremos: Zeca sabe, graças a Edélsio, que é ele quem provoca os fatos. E sabe que o faz apenas para ter a ilusão de que a sua fantasia premonitória é real. Ele sabe até mesmo das razões de tudo isso; razões que Edélsio sequer suspeita. Conhece as forças sutis, imateriais, que habitam o lado desconhecido do Universo. E lá, como aqui, há forças e sombras de todos os tipos; "Dia desses um Carl von Linné, Carolus Linnaeus ou simplesmente um Lineu qualquer haverá de organizá-las em espécies e subespécies, arquivos e diretórios, estabelecendo a ordem neste mundo de duendes, anjos, espíritos, orixás e fantasmas", cogita.
Há, por exemplo, aquelas forças que descansam, satisfeitas, na eternidade. Mas há, também, as outras, afoitas, incapazes de conviver com o limbo sem tempo espaço matéria onde estão enfiadas e que, por isso, emergem dali e invadem a vida dos homens e dos seres encarnados. Incapazes de gozar, como nós, o prazer da matéria - as praias, mulheres, matas verdejantes, mulheres vestidas, o nascer e o pôr do sol, mulheres despidas, o vento na copa das árvores, mulheres nuas e seminuas, o crepitar das chamas, o ruído das águas, mulheres, mulheres, champanhe, mulheres, caviar e mulheres - estes espíritos inquietos invadem o sono de alguns homens e a vigília de outros. E assim induzem os homens a criarem coisas: eletricidade e fios, ondas de rádio e TV, gravadores, fibras óticas, cerâmicas, chips e microchips. “Tudo o que querem estes espíritos inquietos”, pensa Zeca, “é utilizar os homens e seus inventos, para que possam emergir da impessoalidade do Eterno onde eles estão enfiados e compartilhar com nós, os encarnados, este lado quente e generoso da manifestação divina".
Zeca sabe que foram estes espíritos que povoaram sua vida de fantasias e o induziram a ilusões. Sabe que foram eles que invadiram o seu computador com a intangibilidade das sombras. É neste momento que se diverte ao lembrar-se de Edélsio: “Sobre estas coisas, o doutor nada sabe ou sequer suspeita”. Edélsio desconhece portanto, pensa Zeca, a porta inatingível e inviolável do cérebro de Zeca e de suas sombras. "Tu é quem provoca os fatos, apenas para ter a ilusão de que sua fantasia premonitória é real", ironiza Zeca.
E, agora, diante da cena que se descortina aos seus olhos...
Desenho 4 A: Desfeita a sombra, não é uma imagem de fogos de artifício, malabaristas e acrobatas que se vê. Mas a tragédia das tragédias: um edifício em chamas, com bombeiros, ambulâncias, gente saltando das janelas em chamas, mulheres dependuradas em antenas de TV, etc...
-- De novo aqui, querido leitor, não tenho desenho nenhum pra ajudar tua imaginação... Mas não vou te deixar sem ver o segundo desenho deste cartoon do nosso Carlos Estevão.
domingo, 6 de setembro de 2009
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