Zeca, no bebedouro d'água, a dez passos do chefe, a tudo observa. Até ele estranha o ritmo tranqüilo com que bate, agora, o seu coração. Não sente os olhos turvos e a boca seca como seria o normal. De modo que é apenas o hábito que o leva a enfiar a mão no bolso, tirar o vidro e engolir um comprimido antes de voltar para o lado do chefe, diante do computador.
No fundo, Zeca sabe que ele e apenas ele é o responsável por tudo aquilo. Compreende a inutilidade das ações do chefe e de certa forma se diverte. E tanto isso é certo que basta aproximar-se do computador para que a sombra se desfaça ...
... e a vida volte ao normal:
- Viste, meu filho, no es nada - diz o chefe, forçando uma calma que não aparenta.
Mas, aos olhos atentos de Zeca, novamente não passam desapercebidas as mãos que tremem, nem o suor repentino que marcou o sovaco da impecável camisa de cambraia branca. "No es nada el carajo", pensa, mas também não diz.
Zeca, agora, está mais certo do que nunca de que um furacão desabará sobre sua cabeça antes do final do dia.
E, de fato:
Assim que chegou em casa, Zeca estacionou o carro, deu a volta na calçada para não passar debaixo da janela de Berta e decidiu ir até o pequeno boteco da rua em frente, certo de que só assim, relaxado por alguns goles de cerveja, poderia enfrentar aquilo que o esperava a qualquer momento, em qualquer esquina.
Antes de cruzar a rua, no entanto, a mesma sombra aparece agora na cortina de uma janela, em sua frente:
domingo, 6 de setembro de 2009
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