domingo, 6 de setembro de 2009

... conclui: "Telecinéticamente real".
E orgulha-se, então, deste seu poder de criar tanta confusão no universo ao seu redor.

Mas, naquele momento, a violência da realidade não o jogou para fora de si, como no dia de sua morte. Agora, pelo menos, existiam os comprimidos. Zeca engoliu a seco mais de meio tubo. E certamente foi isso que o levou a perder a consciência e a lucidez na observação dos fatos. De modo que não percebeu o movimento daqueles dois vultos que se escondiam no meio da multidão exultante diante do espetáculo do edifício em chamas. Em um dos cantos, com o cós das calças erguido até a altura do umbigo e pisando em botinas novas, Edélsio disfarçava-se sob as abas do chapéu panamá e a fumaça farta do palheiro de fumo goiano. Se o visse assim, a contemplar pensativo a tragédia, Zeca certamente diria que Edélsio revelava-se inteiro naquele momento: utilizava o disfarce de alguém que nunca fora para mostrar aquilo que realmente é: palíndromo de si, o retorno perpétuo aos remédios e às seringas. “Porque, Edélsio, te recusas a ouvir aquilo que Freud te diz?”, pensaria Zeca e talvez não dissesse. E, depois de concluir isso, ficaria tão concentrado nos gestos e nos olhos de Edélsio, que certamente não veria, ao lado dele, aterrorizado pelas chamas e por vírus húngaros, enfiado no paletó da moda, na gravata imensa, o seu chefe argentino contemplando as sombras e as chamas.
E se pudesse ler o que lhes ia pela mente, Zeca descobriria que diziam, em telepático uníssono, "és tu, Zeca, quem provoca os fatos". Mas, àquela altura, embriagado pelos remédios, Zeca já havia perdido completamente a consciência. E nada viu. Em nada pensou.

No dia seguinte, ainda sob efeito dos comprimidos, e quando, em cada esquina, os jornais estampavam os detalhes da tragédia, Zeca buscou logo cedo seu refúgio. Deitado na rede do consultório de Edélsio lastimou sua sorte com os olhos úmidos:
- Doutor, estou sendo perseguido pela realidade – disse, enquanto concluía em silêncio: “A realidade que eu próprio crio ao meu redor”.
- Ora, filho, quantas vezes terei que repetir, quantas vezes pelo amor de Deus? Projeções, projeções. Tudo não passa de projeções de sua mente.
- Doutor...

Momentos depois, quando chegou ao trabalho, ainda não refeito do medo e das sombras daquela noite, Zeca foi mais uma vez testado pela realidade. Os gênios da informática, que sempre viveram trancados em suas torres de vidro no andar superior do prédio, todos os especialistas da empresa rodeavam o computador de Zeca. Sentado diante do teclado, sob o olhar embasbacado de todos, o chefe argentino suava aos cântaros:
- Vírus húngaros del carajo...
Assustado, Zeca pensou em virar as costas e sumir; enterrar-se para sempre nas colinas ermas da sua pequena cidade. “Ou então, melhor, refugiar-se no paraíso de uma ilha deserta nos mares da Grécia”. Mas a simples ideia de sentir um dia a terra tremendo sob os seus pés, por mais banal que fosse o terremoto, o apavorava. Pensou então que seria melhor o Caribe, as praias de Cuba, com Fidel e tudo. "Mas a Grécia jamais!".
Imaginando isso e perdido em seus pensamentos, perdeu também a consciência do corpo e, pé-ante-pé, conduzido por gestos que não eram seus, caminhou em direção à junta de sábios. Postou-se, sem ser visto, atrás deles e só então pôde ver o que acontecia no vídeo de seu computador.

Desenho 5- Aparece, de novo na tela, o desenho 1, aquele da primeira sombra da mulher, que parece estar sendo assassinada por um louco.

Horas depois, na entrada do portão de casa, novamente ali, na janela de Berta, Zeca foi confrontado mais uma vez com sua velha e primordial sombra.
Mas, agora, ele sabe que não é com ele. Sabe que Não deve ser idiota e repetir o erro anterior. Além disso, como constatara Edélsio, a realidade já havia invadido a vida de Zeca e, portanto, as sombras não pertenciam mais a ele. “Ora, ora”, pensava, despreocupado, “ora, ora. Desta vez, eu sequer estava diante do computador quando a sombra surgiu.”
Por isso, Zeca agiu como agiria qualquer um que fosse ou não fosse Zeca, que pensasse ou não como ele. Agiu como um homem normal: virou as costas e dirigiu-se até sua casa.
Mas antes que tivesse tempo de torcer de novo a chave na fechadura da porta, um resto de sombra o advertiu para que voltasse e visse.
Lá estava ela, leviana, a sombra, no pórtico da janela de Berta.

Desenho 5 A - Novamente o desenho da sombra aparece, mas agora projetado nas cortinas da janela do quarto de Berta.

Por isso, quando chegou diante da porta se sua casa, Zeca foi atacado por uma apreensão mortal. E, neste momento, ouviu o grito e o barulho de um corpo caindo. Virou-se sobre os calcanhares e, já certo do que ocorrera, encarou a multidão de vizinhos que juntara-se diante da casa de Berta.
O corpo de Berta, nu e mutilado, jazia na calçada, dentro de uma poça de sangue.

O assassino aproveitara a confusão e conseguira correr como uma sombra (de novo a sombra) até a entrada da vila e de lá escapulira montado em uma motocicleta.
Uma dor infinita partiu o coração de Zeca naquele instante. Perdera para sempre a oportunidade de ser o herói, o salvador de Berta. Primeiro, lamentou não ter se enrolado na cortina como da primeira vez, depois pensou que poderia, pelo menos, ter barrado o assassino em sua fuga. “Assim, seria um herói, mesmo que sobre o cadáver de Berta”, imaginou isso e assustou-se: “Qual o sabor de ser herói para uma amada que já se foi?” Zeca começou a entrar nesta nova onda de divagações, mas as sirenes da polícia e da ambulância o interromperam.

No dia seguinte, no consultório:
- Doutor, é o fim. Realmente é o fim, a realidade me absorveu.
- Como?!
- Doutor, a realidade me absorveu.
- Enfim, meu filho, enfim - Edélsio exultava. - Enfim, meu filho, enfim você está curado.
Edélsio não se conteve. Levantou-se quase em lágrimas da cadeira. Aos gritos, avançou sobre a rede em que Zeca repousava. Abraçado a ele, beliscou seu corpo, suas bochechas. Segurou Zeca por uma das mãos e o levantou, bruscamente, da rede.
- Enfim você está curado, meu filho - disse, enquanto enfiava as mãos nos bolsos de Zeca para tirar de lá os vidros de comprimidos. - Devolva os remédios que você me tomou e cujas bulas nunca leu. A realidade finalmente te envolveu com tudo o que tem de belo, generoso e farto. Agora, filho, siga o seu caminho. Ponha-se imediatamente daqui pra fora e siga o teu caminho.
A emoção de Edélsio envolveu Zeca:
- É verdade, doutor, sinto isso. Estou curado.

A partir deste dia a vida tornou-se o que deveria ter sido sempre para Zeca. Um sonho suave, um longo caminho suave.
E, agora, já nada pode fazê-lo sofrer.

Desenho 6: O desenho que apareceu naquela segunda sombra, a que mostra o velho empunhando uma faca contra uma criança, é agora verdadeiro: o velho abominável realmente mata uma criança, enquanto um grupo de canibais, de talheres em punho, espera para devorá-la. Zeca passa por ele como quem passa por uma sombra.

Zeca é um homem feliz e não terá, jamais, que confrontar-se com as sombras que o jogavam em espirais.
Zeca está curado.

Desenho 7: Os holofotes da sombra que pareciam anunciar uma festa, agora no desenho real são realmente holofotes e uma imensa festa toma o centro da cidade. Nada de sirenes, incêndios. Cordas esticadas por cima da avenida, malabaristas, fogos de artifício, e por aí afora.

Zeca está curado.

Desenho 8: A morte de Berta, como ocorreu na última cena, não é realmente a morte da amada, mas apenas um homem que penteia os seus cabelos e a acaricia.

Zeca, agora, poderá ser feliz. E segue seu caminho...

Desenho 9: No desenho, ele vê uma longa estrada, como as estradas dos finais dos filmes do imortal Carlitos, de Charlie Chaplin, que se perde na linha do horizonte, e entra dentro de um desenho muito muito muito antigo, da mais remota infância de Zeca. O desenho da capa de sua primeira cartilha.

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