1.
CANTORIA NA QUARESMAQuem quiser libertar a filha do diabo terá que cumprir sete tarefas:
1 – Limpar o quintal;
2 – Plantar o milho;
3 – Fazê-lo crescer;
4 – Colher toda a safra;
5 – Moer as espigas;
6 – Assar 300 pães e,
7 – Oferecê-los aos demônios do inferno em apenas três dias.
O intruso que não conseguir será morto em fuga, caçado pelos sete cães do capeta.
(Lenda Goiana)
Depois, muitos se apaixonariam e dariam até a vida para ter, por uma noite, o corpo de Elisa nas mãos. Isso é diabólico. Não a história que, em si, é comum por estas bandas.
A mais bonitinha de todas, sem dúvida, carinha de anjo e mãos delicadas, bordava flores roxas sobre o lenço de alva cambraia. E os olhos, ah!, da pequena Elisa, negros como jabuticabas, batendo as longas pestanas, iam tão longe do trabalho, longe da fina agulha.
Que esforço, meu Deus!, tão meiga Elisa, para se manter atenta sobre o bordado, desperta após aquela longa noite.
Ela pensa em tudo o que aconteceu, mas não gosta nem de lembrar.
Nhô Frauzino não devia ter dito aquilo, pelo menos com Elisa por perto. Pobrezinha, depois tremeu na cama, sonhou coisa ruim e agora ficava ali, pestanejando sobre a cambraia.
Elisa borda para esquecer.
Mas ontem a noite, quando o Frauzino chegou, que medo, que medo, credo!, ela teve do pai. E logo do pai... tão bom ele sempre foi, crente até, piedoso, carinhoso. No frio, então, a mão do pai nos cabelos de Elisa, contando aquelas histórias que dão medo, mas um medo tão mansinho, que fica gostoso encolher na coberta depois e dormir bem quentinho, só pra lembrar.
Mas ontem, a cara do pai, aqui mesmo, nesta varanda fresca de samambaiais, de tábuas úmidas da noite, que susto que deu em Elisa.
Foi um minuto, um segundo só, mas ele mudou os olhos, mudou a boca e parecia – que é isso menina?, nem fala, nem pensa este nome, bate-bate na boca. Mas parecia isso mesmo, um olhar de capeta.
Tudo culpa do Frauzino, aquele velho implicante. Estava todo mundo aqui, neste mesmo terraço. A lua tão bonita, atrás da casa. O mandiocal brilhava, prateado. Seu Juca, a voz grossa e bonita, cantando as coisas que o pai tocava.
O Jorginho, safado, espiava de um canto. No outro, o Celso, o Nhô Rodrigues, a mãe no sofá da sala e todo mundo ouvindo e gostando.
Aí o ranheta do Frauzino chegou e falou aquilo. Esperou o fim da música e nem tirou o chapéu:
- Seu Carlos, não presta fazer cantoria em noite de Quaresma. O senhor bem sabe. Chama o capeta.
Falou assim, na lata, montou no cavalo e se foi.
Elisa, coitadinha, olhou direto na cara do pai. Foi um minuto, um segundo só. Podia ser o cheiro da pinga que eles bebiam, a fumaça do cigarro ou o som que o pai repicava na viola. Mas ela viu e não pode negar que viu. Ui, nem repete, nem repete menina. Bate na boca três vezes.
Então era isso.
E de noite Elisa nem conseguiu dormir. O pai, meu Deus, o próprio pai. E agora os olhinhos de Elisa iam batendo, as mãos tão meigas bordando, devagar, iam errar o ponto da flor. “Será que mamãe sabia?”, pensou ela.
... era um lugar escuro e fundo, cercado por densas penumbras. A luz das velas projetava a mesa, talheres, garrafas vermelhas de vinho sobre o branco da parede. Muros que o tempo e a solidão da água cobriam de imagens. O cheiro das cavernas impregnou o claro vestido de Elisa. Ela ajeitava os pequenos seios que despontam, pálidos, sob o decote. Foi quando os homens chegaram rompendo o silêncio.
Joca sentou-se ao lado direito de Elisa, na mesa do banquete, e destampou a primeira garrafa de vinho. Jorginho, seu Lúcio, Rodrigues e Celso, todos eles, avançaram sobre a carne. A farofa impregnou as barbas e ficou suspensa na luz das velas, como grãos de poeira que flutuam nos raios de sol.
Elisa olhava a fúria dos homens. E ergueu o joelho, apenas isso: um centímetro. O tecido fino do vestido escorreu por sua perna. Foi então que a mão grossa e dura de Joca, agora leve, segurou a carne tenra das brancas pernas de Elisa.
“Como ri alto este Jorginho, como gritam os homens”!
A mão de Joca invadia as saias, invadia a coxa. Mas Elisa não via. De repente, meu Deus, quem é que chega ali, escondido pelas sombras? É o pai, pisando o chão com os seus cascos de bode (“Eu bem vi, eu bem sabia”, relembra Elisa).
E Nhô Frauzino, sorrindo e olhando para ela, abraça forte os ombros do pai.
Neste momento a mão de Joca saltou rápido da brancura das coxas, alcançou o garfo que repousava na mesa e antes que Elisa desse conta da dor, cravou-o na carne alva:
Ai.
Quatro gotas de sangue, como pérolas vermelhas, brotaram das pernas de Elisa.
- Ai.
- O que foi, minha filha – gritou da cozinha a mãe de Elisa.
- Nada não. Acho que cochilei. sonhei e distraí do bordado. Só isso.
Uma gotinha de sangue ficou ali, redondinha como a flor, na ponta do dedo, até que a cambraia chupou.
Só então Elisa se deu conta. Fora acordada pelo trote de um cavalo alazão, já quase encostado no beiral da varanda. Olhou assustada e logo seu coração disparou com a beleza do moço que chegava montado.
- Oi menina, o papai está?
- Mãe, tem gente!
E dona Rosa acudiu enxugando as mãos no avental.
Depois, o moço que vinha de longe, rodou com o pai pelo pasto. Separou os bois que queria comprar e só voltaram à noitinha. A comida estava na mesa. Mais tarde, já todos de barriga cheia (só a de Elisa vazia, comeu tão pouco, tadinha!) o cheiro de café coado invadiu a sala e foi então que começou tudo.
O moço, que nem parecia ser disso, botou o rolo de fumo na mesa e ofereceu um naco para o pai. Picou com cuidado, enrolou direitinho o cigarro na palha e, na primeira fumada, seus joelhos tocaram os de Elisa. “Meu Deus”, pensou ela, “o pai viu tudo”.
Mas o pai acabava de picar o seu naco de fumo. Enfiou a ponta do canivete na mesa e disse:
- Elisa, já pra cama! Eu e o moço ainda temos muito o quê conversar.
Rolando na cama, assustada, ela mal conseguiu pregar os olhos.
Pelas paredes finas das tábuas da casa, ouvia a voz macia do moço contando noticias da cidade. Daí o pai falava e ria, e ria tanto e batia a palma da mão na coxa, assustando a menina.
Quando, enfim, o moço veio para a cama de Elisa, há muito que o pai já roncava. Mas ela não. Sabia de tudo e jurou que não deixaria.
- O pai nos mata! – sussurrou ela. – Só eu sei o poder que ele tem.
- Por ti, eu é que vou matar e morrer – dizia o moço. E se debruçava sobre o alvo colo de Elisa.
Elisa caiu, ergueu-se. Caiu de novo e se levantou com as faces rubras.
E mais uma vez. E caiu e levantou.
Até que o seu corpo, molhado de tantos suores, decidiu reagir. Mas aí já era tarde. O vulto do pai chegou à soleira da porta:
- Durma menina. E você, seu moço, venha já pra cá que amanhã falamos.
Elisa sabia de tudo. Bem que tentou avisar. Não houve sangue e nem morte, mas aquele era o plano do pai. E jamais seria possível.
- Fuja meu bem, fuja. Ele vai te pedir coisas que você não pode fazer – sussurrava Elisa.
Mas, na manhã seguinte, assim que nasceu o sol, o moço se atirou sobre a mata com a foice em punho.
Jurou que cumpriria as sete tarefas, esconjurando o demônio.
Elisa, de bordado em punho, não conseguiu tecer sequer um ponto. Sabia que era impossível.
Mas quando o sol veio a pino ela desafogou a alma. O quintal inteiro estava limpo. Parece até que braços invisíveis trabalharam pelo moço, do lado de lá da mata.
Ao meio dia ele pôde até parar um pouco e comer uma espiga de milho cozido. Só então Elisa sorriu e bordou uma flor.
A tarde foi ainda mais fácil. O moço nem precisou de ajuda. Antes das cinco, todas as sementes já estavam nas covas, plantadas e cobertas de terra. Mas como fazer para que germinassem até a manhã seguinte?: “Pela piedade da Virgem, fuja, antes que ele te mate”, suspirava Elisa.
Mas, na manhã seguinte, o sol nem ainda surgiu e o milho já havia crescido.
Então o moço atravessou o dia e a noite moendo aquele milho.
E Elisa, já sem sangue nas faces, finalmente adormeceu exausta.
Quando ela acordou, no meio da manhã seguinte, o moço quase cumprira a sexta tarefa. Aproveitando a força do sol, amassara os pães e prometeu assá-los bem antes do final da tarde.
Mas Elisa avisou e ele nem ouviu:
- Fuja, fuja, ele vai te matar.
O pai, pensava ela, mordia o lenço e rangia os dentes.
Então Elisa pediu que partissem naquela mesma noite, assim que os cães caíssem no sono.
Dona Rosa, a mãe de Elisa, só chorava e pressentia.
No final da tarde os 300 pães estavam assados.
Mas antes de cumprir a última tarefa o moço enfim atendeu os apelos de Elisa. E assim, os dois fugiram no meio da madrugada, enquanto os cães e o pai dormiam, só Dona Rosa chorava.
Dispararam pelos campos e cerrados, ela na garupa do alazão do moço.
Por mais de três dias escutaram ainda a algazarra dos cães e dos mil cavalos no encalço deles.
Mas o alazão do moço corria e corria tanto, os músculos daquele cavalo já quase sangrando as coxas tenras de Elisa, que a algazarra e o tropel se perderam enfim numa curva da estrada.
E só então, pela primeira vez, eles puderam pensar em dormir.
O moço acendeu uma fogueira e Elisa deitou-se, ofegante, perto do seu calor. Ele cobriu o chão frio com peles e ela despiu-se, branca, banhada na lua.
Foi então que o moço bonito tirou as roupas e, refugiado nas sombras, ainda tentou esconder, mas Elisa viu. As pernas dele surgiram peludas, feito as pernas de um bode. Depois, quando ele retirou as botas, ela imaginou que viu ou pensou que viu mas realmente viu os pesados cascos que eram os pés do moço.
- Ai Jesus – gemia Elisa, acariciando as sombras dos chifres que despontavam na cabeça do moço.
- Ai Jesus – dizia, abraçando o corpo peludo.
- Ai Jesus – e aquele rosto lindo a beijava.
- Ai Jesus.
- É isso que dá fazer cantoria em noite de Quaresma.
2.
A SÓRBIA – UMA PROVINCIA DE NOVA IORQUE
Naquela tarde Pocho se levantou do sofá da sala, foi até a cozinha e não sabia se esquentava o arroz de ontem ou bebia uma cerveja. Destampou a garrafa e parou na janela, olhando os flocos de neve que caíam no velho bulding. O pátio já estava colorido com as luzes de Natal dos vizinhos hispanos. O reggae batia no rádio e Pocho, dançarino estabanado, sentiu vontade de sair pisando na sala – que é como se dança este som. Pensou em Tiago, o amigo recém operado num hospital de Bronx e nos planos que tinham de se mandar para o Caribe, interrompido pela cirurgia inesperada. O número de seu quarto deu na loteria daquela semana, mas ninguém jogou. Poderia ter ganhado 500 pesos (os hispanos não respeitam moeda nenhuma e chamam dólar de peso).
Pensava nisso quando ouviu um baque na parede.
Em outros dias já ouvira aquelas mesmas pancadas sob a pia da cozinha. Mas eram leves, como naquela noite em que bebia com Anton e brincaram: as almas aprisionadas nas paredes do Brooklin estão nos chamando.
Mas agora, muito fortes, as pancadas não poderiam ser deixadas de lado. Pocho aguçou os ouvidos e sentiu que não soavam como as costumeiras ferramentas de metal quebrando os azulejos da parede contígua.
Imaginou um som de mãos esmurrando a rocha; era assim que parecia. E como estava só, nauseado pela possibilidade do arroz quase azedo ou da solidão, Pocho resolveu descobrir de uma vez por todas a origem dos ruídos.
Muniu-se de um martelo que nunca usara. A antiga moradora, uma bailarina mexicana, o esquecera há muito tempo no velho baú vermelho, entre pimentas e chás dietéticos.
Bateu primeiro por dentro do armário, abaixo da pia. As pancadas, que pareciam vir dali, cessaram por um instante. Logo reiniciaram, bem abaixo, e foram subindo de intensidade e direção, abafando o som da torneira que não cessava nunca de pingar.
Pocho martelou de novo e agora as pancadas vinham de todo o armário. Exaltado, ele teve que arrancar as portas para se movimentar com liberdade. Martelou com força e, do outro lado, a resposta era uma sinfonia de toques abafados.
Pocho se atropelou nas latas vazias de cerveja (no mercado elas valem cinco cents), chutou as garrafas de água sanitária, limpou com movimentos desordenados o pequeno espaço que havia para trabalhar.
Só neste momento ele se lembrou da máscara de bruxos maias que guardava em uma caixa de papelão no canto da sala. Numa noite ela saltara do lugar onde a haviam metido. Em outra manhã escura de inverno, resplandecera como uma tocha iluminada diante dos olhos de todos. Será ela? Pensava Pocho. Mas as pancadas recrudesceram. De martelo em riste, ele se deitou dentro do armário e bateu forte em todas as direções.
Os primeiros pedaços do sheet-rock começaram a cair, desenhando multidões de máscaras maias nas sombras do reboque. Daquela infinidade de olhos vazavam raios de luz e, assim, o outro lado começava a filtrar para a cozinha de Pocho.
As pancadas, agora, esboçavam um ritmo e ele abandonou o martelo. Cavava o tapume com as unhas, quando a campainha da sala soou.
Imaginou que seria Anton voltando da bebedeira e saiu rastejando pelo carpete, com a roupa coberta de gesso. Na verdade, a cara do policial fardado, sério, armado até os dentes, lembrou vagamente o semblante compenetrado de Anton. Pocho sorriu, só por isso. Mas o outro guarda, um irlandês munido de walkie-talkie não estava para brincadeiras e o interrogou objetivamente. Perguntou sobre o suposto espancamento da judia loira, uma mulher de ancas largas que vive no apartamento acima. Não sei de nada, pensou Pocho.
Mas não respondeu. “Todas as noites se espanca alguém por aqui e há um negócio mais importante agora, na pia da minha cozinha”, disse.
- Alô! Os cops se foram - enquanto ele fechava a porta o telefone tocou. Era Anton, a voz já pastosa: “Alô”.
Bebia com Rick Collins, um ex-marinheiro, num bar do Village. Pocho ainda pensou em trocar a roupa, tomar o subway e encher a cara com seus amigos. Outros amigos, psiquiatras, doutores, universitários com cátedra, o acusariam de escapismo. Mas ele sabia; não era isso. O que importava, era o armário. De qualquer forma, sentiu, ou intuiu, uma brisa do mar que vinha de lá e respondeu: “Anton, você sabe bem que gostaria de estar ao seu lado, mas sequer imagina o que está para acontecer no armário de nossa cozinha”, terminou quase aos berros.
- Que negócio é esse de armário, cara. Está bêbado?
- Ok, em 40 minutos estou aí – respondeu Pocho, voltando imediatamente para dentro da cozinha.
As batidas soavam agora como se a parede estivesse para ser invadida por todos os garimpeiros juntos da Serra Pelada e Roraima e Porto Velho e Vilhena; e nações suruís e cintas-largas, kaiabis, xavantes, incas e tupis.
Pocho pensou em todas as legiões emparedadas, nas almas errantes em busca de corpo, querendo brotar do gesso e do cimento. Riu da idéia e de si, disposto a botar abaixo a pia e – pura mentira – o prédio inteiro se fosse preciso. As pequenas frestas se uniam, formando um rombo cada vez maior. A luz intensa ofuscava qualquer visão que viesse de lá. Mas um vento bateu em seu rosto e Pocho sentiu claramente o cheiro e o calor da brisa marinha. Camarão frito, caranguejo ao molho, mexilhão ao vinagrete, lagosta na manteiga, siri apimentado...
Mas chega de sutilezas. Pocho armou-se novamente do martelo e arremeteu contra os olhos daquela multidão de máscaras maias. Investiu furioso contra o gesso e arregaçou a marteladas aquela sabedoria secular dos magos. Só parou, ofegante, quando uma caverna maior que seu corpo abriu-se na parede da cozinha.
Então suspendeu o martelo, cara-a-cara, diante dos homens que batiam pelo lado de dentro de sua pia (mas qual era mesmo o lado de dentro?).
A parede de Pocho – ele descobria agora – desembocava no oceano. Chegou a perguntar que oceano era aquele, mas isso já não importava, frente aos homens que olhavam do lado de lá de sua pia. Acenou com as mãos, mas não disse nada. Não imaginava, afinal, que língua falavam.
Apenas um dos homens respondeu ao aceno. Os outros olhavam tão incrédulos quanto Pocho que, naquele momento, descobriu que só havia uma coisa a fazer. Recolocou no lugar – gesto inútil – as portas do armário e saltou em direção à praia. O metro e meio, ou pouco mais, que pareciam separá-lo da orla da areia e dos homens que continuavam olhando, alongou-se, estendeu-se por minutos e minutos seguidos.
Chegou lá embaixo já quase sufocado pela brisa forte da maresia. Sentiu na roupa a umidade da areia e pensou que deveria ter trazido com ele a velha sunga comprada há muito tempo em um cais do Caribe. Lembrou-se que na manhã seguinte – e a manhã era aquela – se encontraria com Pátria, a porto-riquenha, para assistirem a parada anual dos gays.
Mas então o homem que acenara da praia dirigiu a ele as primeiras palavras em sorbibês. E, por ele, Pocho descobriu a língua falada na Sórbia, país que fica bem debaixo da pia da sua cozinha.
3.
O DIA EM QUE AS FORÇAS ARMADAS SERVIRAM A SATÃ
Foi uma obra do acaso que levou Mauricio a desconfiar que o demônio havia habitado em uma parte de seu passado.
Seu passado, naquela época, já se confundia com a história de sua família e isso começou a ocorrer quando ele ainda era muito jovem.
Começou no dia em que ele se trancou pela primeira vez no sótão do velho casarão. Passou a tarde ali e depois, durante muito tempo, subia religiosamente ao sótão assim que voltava da escola e ficava ali até quase o final da noite.
Neste ritual durante meses, ele limpou e catalogou cada uma das fotos, os diários, escrituras e documentos que se acumulavam no casarão desde o início do século.
Seus pais, no começo, o felicitaram pela descoberta do que imaginavam ser uma vocação precoce. Mas logo a mãe, a cujos olhos atentos nada escapava no velho casarão, começou a se preocupar com Mauricio. Ele descuidou das notas – pouco no começo – mas elas minguavam meio ponto, um ponto, a cada boletim. Mesmo assim, decidiu dar o alarme só quando percebeu que a queda era maior justo nas disciplinas de Historia e Geografia. Avisado, o pai chamou Maurício para uma conversa séria.
Mais tarde, sozinhos no quarto naquela noite, mãe e pai discutiram pesado. Ela chamou o marido de frouxo e condescendente. Mas a verdade é que o pai estava impressionado. Compreendeu pouco sobre ponderações do filho, mas pela primeira vez Mauricio havia erguido a voz para ele, defendendo argumentos. Um sinal de que, aos dezesseis anos, começava a virar homem e, mais do que isso, defendia com rigor as próprias ideias.
De qualquer forma, foi esta falta de unanimidade familiar que permitiu a Mauricio prosseguir com seu trabalho.
Logo depois, no início da década de 1990, estourou a crise econômica do governo Collor e a sobrevivência do casarão ficou ameaçada. Com a poupança saqueada, as empresas do pai faliram.
Mas, ao contrário do que todos imaginavam, foi justamente o pai quem lutou até o fim para que não vendessem o casarão. Ele que, em duas ou três das raras discussões em família, ameaçava vender tudo e mudar-se para São Paulo, curvava-se agora à sina de outros tios. E, de mala em punho, começou a viajar algumas vezes por semana até a Capital. No começo, vendeu livros batendo de porta em porta, depois aparelhos médicos e até sapatos no final da saga.
Quando o Brasil começou a emergir da crise, o filho mais velho já era um homem e decidiu ir embora de Iporã. A irmã ficou noiva e se casou em seguida.
A esta altura, Mauricio já havia catalogado milhares de fotos, estudara minuciosamente as procurações, documentos, notas, hipotecas e folhas esparsas de diários. Construiu assim a árvore genealógica de todo o patrimônio da família e refez uma trajetória que sequer a avó, ainda lúcida, imaginava tão rica de personagens e circunstâncias.
O que mais assustou Maurício foi a velocidade com que os bens da família haviam se dissipado. Ele era jovem e não tinha ainda uma compreensão completa e racional das coisas. Mas imaginava que se a fortuna de trinta ou quarenta anos atrás ainda estivesse nas mãos de seu pai certamente ele poderia estudar agora nas melhores escolas da velha Europa. Atribuiu os erros a alguns tios remotos.
(Como todo jovem, ele ainda nada sabia do verdadeiro passado).
Foi só mais tarde e, por acaso, que percebeu em tudo a presença de Satã.
Em 1995, Mauricio considerou seu trabalho concluído.
Naquele ano fora reprovado pela primeira vez na escola. O irmão mais velho retornara gravemente enfermo da capital e todas as atenções se voltaram para ele. A mãe descuidou do boletim, deixou de comunicar o pai e os estudos de Maurício ficaram completamente à deriva. Mas, sabemos, o Grande Arquiteto escreve certo por linhas tortas e, talvez, tenha sido exatamente isso o que permitiu a Maurício concluir seu trabalho.
O trabalho levara Mauricio a mergulhar em estudos técnicos de biblioteconomia e documentação. Ele tinha consciência, portanto, de que a papelada e as fotos não deveriam apodrecer na umidade do sótão. Tentou convencer a família a entregar toda aquela documentação a uma grande biblioteca da Capital. Os negócios que seu pai havia feito por lá, desde o início da crise do governo Collor, acabaram prosperando e agora ele mantinha um escritório de transações imobiliárias que absorvia cinco dias de sua semana. Chegava em casa sexta-feira de noite e segunda, logo cedo, pegava o carro último tipo que já conseguira comprar e zarpava para a Capital.
Nos finais de semana, exausto, o pai se deitava na rede da varanda do casarão e assim podia ficar horas conversando com Maurício. Até que foi finalmente convencido por ele. E decidiu procurar a biblioteca.
Maurício fizera um relatório com mais de 50 páginas informando sobre um por um dos principais documentos, descrevendo o acervo de imagens e, por fim, cinco parágrafos de argumentos que impressionaram o pai pela precisão da linguagem em defesa da preservação daquele patrimônio.
Para Maurício, os documentos da família contavam “uma parte importante” e quase misteriosa (isso já foi o pai quem pensou) da história econômica, social e política de uma grande região do interior paulista.
Mas a forma como o pai foi atendido pelas pessoas com quem falou na biblioteca o decepciou. O relatório ficou mais de um mês com eles. O pai ia e voltava de lá quase todos os dias e nunca teve uma resposta precisa. Só insistiam em ver os documentos. Marcaram alguns deles, riscando descuidadamente o relatório com a caneta, e queriam que ele os trouxesse antes de qualquer resposta.
O pai de Maurício começou a desconfiar seriamente da honestidade daqueles homens, mas nunca – é claro! – falou disso ao filho.
Chegou a suspeitar que, movido pelo idealismo, Maurício poderia estar entregando àqueles vetustos homens de terno preto coisas bem mais sérias do que imaginava. Afinal, pessoas movidas pelo idealismo quase sempre cometem erros. Ele próprio cometera alguns, graves, quando era jovem. No começo de sua vida empresarial, assim que assumiu a parte mais importante dos negócios da família, o pai lembra com bastante remorso que
doou para a Igreja o enorme terreno, na época de baixo valor, onde hoje está construída a nova catedral de Iporã. Hoje, toda aquela região se transformou em área nobre da cidade, de valor inestimável. “Se tivesse preservado apenas alguns terrenos por ali, hoje seria um homem muito rico”, matutava ele, lembrando do velho pároco, dos grupos de fieis e dos então diretores da Associação Comercial de Iporã que o convenceram a fazer a doação.
Pensando em tudo isso ele decidiu simplesmente esquecer o assunto da biblioteca, não contou nada para Maurício, e respondia com evasivas às perguntas do filho até que a história caiu no esquecimento.
Assim, aquilo tudo continuou no sótão, amontoado em baús velhos e caixas de papelão, sem mais utilidade e destino nenhum.
Raramente Maurício subia até lá.
A papelada ficou totalmente esquecida até o dia, numa tarde de setembro, em que Maurício apaixonou-se pela mulher que o conduziria ao demônio.
Ele a viu de longe, na sorveteria da praça e desde então já não pode esquecê-la. Era quase seis da tarde e a moça, vestida de jeans extremamente justos, bebia cerveja com os cabelos revoltos e os pés jogados com descuido na cadeira vazia da mesa. Ela era magra, de pernas longas e seus ombros pareciam muito erguidos para uma mulher. Mas isso também cativou Mauricio, de certa forma. As meninas roliças da cidade se encharcavam de sorvete e guaraná e até ele, viciado em coca-cola, sentia-se mal com dois copos de cerveja.
Mais tarde, rolando na cama, recriminou a falta de ousadia que o impediu de chegar mais perto da moça. Nas manhãs seguintes, perguntou por ela e acabou chegando ao velho barracão da escola do sítio. Ele a encontrou de saias, penteada, conversando com caboclos e crianças matutas. No primeiro encontro, ela riu da timidez de Mauricio. Mas como também estava cansada desta semi-depressão constante dos camponeses pobres com os quais convivia ali, acabou fazendo com que ele se aproximasse.
Mauricio ficou calado e foi ela, horas depois no bar, quem falou com euforia do trabalho que a tinha levado até ali. Usou artifícios simples, com medo que Maurício não a entendesse.
- Veja Mauricio, aquela parede: se te perguntarem quantos tijolos tem, você seria incapaz de responder. É claro, talvez fosse, depois de fazer cálculos, medir, projetar dimensões. Mas pergunte a um bom servente de pedreiro que nada entende destas contas. Imediatamente ele te diz: vai um milheiro, dois milheiros. Veja, agora, aquela cesta de palha: o artesão que a construiu projetou geometrias perfeitas, complicadas elaborações matemáticas. E, no entanto, se eu perguntar a ele o sistema elementar de somar dois com dois, talvez ele seja incapaz de responder. As crianças também, Mauricio, veja bem as crianças com seus brinquedos banais. Que difíceis geometrias projetam nos seus jogos mais inocentes, em suas brincadeiras de cem fogos, no fogo de amarelinhas. Em todas estas ilusões de cronópios, está implícita a abstração matemática. O que eu quero dizer é que para toda esta gente que vive, brinca e labuta, a ciência e suas abstrações complexas fazem parte do dia-a-dia. E mesmo assim, todo o nosso saber acadêmico é incapaz de amenizar o martírio que elas sentem nas salas de aula, diante das equações básicas do 1º grau. Veja que complexas construções de narrativa e linguagem os nossos matutos sabem fazer, alheios a qualquer saber da gramática, e muito mais sábios que os nossos gramáticos e os fiscais da gramática. É esta sabedoria, Maurício, a verdadeira sabedoria da vida que eu estou procurando aqui.
Na verdade, Maurício não teve tanta dificuldade assim para entender as palavras da moça. Afinal, ele sempre fora apaixonado pela matemática e pela estatística e agora estava apaixonado por ela. E então imaginou que ela, com toda essa sabedoria e beleza, certamente haveria de descobrir as mais belas coisas dos homens.
Para Maurício, ouvi-la falar, era como se um anjo tocasse os seus ouvidos. Um anjo que se voltava aos analfabetos para reaprender a ciência da escrita. E que descobria também ali, naquele fim do mundo de Iporã, a gênese da mais exata das ciências.
A paixão fez com que Maurício perdesse rapidamente os escrúpulos e revelasse, após o terceiro copo de cerveja, o seu longo trabalho dos últimos anos.
E assim ele contou para a moça toda a história dos documentos e fotografias acumulados no sótão do velho casarão.
Na manhã seguinte, os dois se enfiaram no sótão e passaram horas examinando os documentos, as fotos e as catalogações de Mauricio. E falaram sobre aquilo tudo e falaram e falaram.
No inicio da tarde, empolgada, ela o arrastou pelo braço e o levou para a parte norte da cidade, uma região que Maurício mal conhecia. Era ali que ela desenvolvia a maior parte de seu trabalho de campo em Iporã, partilhando suas tardes com inúmeras famílias de pequenos sitiantes e chacareiros. Entrevistava alguns deles, às vezes munida de um pequeno gravador. Ou apenas conversava utilizando intrincados questionários que mais tarde projetava em planilhas e tentava deduzir. Através disso, explicou a Mauricio, reconstruía não apenas o que imaginava ser a estrutura básica da forma de raciocínio daquela gente, mas acumulava também importantes informações sobre a história da cidade.
Ela falava de coisas que Mauricio estava farto de saber, mas que tinham outro sabor vindas daquela boca macia e delicada. No começo, relatava ela, viviam ali apenas os grandes fazendeiros e sua multidão de escravos.
Com o tempo, por mais que as famílias se esforçassem para manter as grandes extensões de terra, muitas vezes casando entre si e forçando até o namoro de primos bem próximos, as fazendas acabaram divididas entre filhos, netos e bisnetos.
Mauricio lembra: muitos deles, dissolutos, entregaram o que possuíam e até que não era deles em empreitadas quiméricas.
Com o correr do tempo, aquelas propriedades até então invioláveis começaram a ser ameaçadas pela pressão de colonos e ex-colonos transformados em pequenos sitiantes. Muitos vinham de longe, e se multiplicavam por ali como ratos.
Mas foi só na metade do século 20 que começaram a se formar as pequenas propriedades que hoje, mais divididas do que nunca, dão este perfil de pobreza para a região norte de Iporã.
Jamais Mauricio se aventurara por aquela região da cidade. Outrora esta terra, hoje miserável, pertencera a seus ancestrais. Mas agora, cruzando os telhados coloniais já em ruínas e tomados pelo musgo, floreiras no beiral de janelas e avencas dependuradas nos terraços das famílias pobres, ele se recriminou por não ter vindo antes conhecer estas bandas.
É certo que os casebres de madeira e zinco, misturados tortuosamente aos antigos barracões, paióis e casas bucólicas, quebravam completamente a integridade da região. E, mais do que isso, impressionava Mauricio a grande quantidade de aleijados, deformados, doentes e alienados que encontrou por ali, caminhando entre alguns núcleos de casas.
A moça continuava segurando firme o braço de Maurício e quase o arrastava pelas ruas. E foi pelas observações dela, que o olhar de Maurício sobre aquela gente se tornou mais cuidadoso. E um detalhe chamou sua atenção. Inúmeras pessoas espalhadas por toda aquela área ostentavam uma marca sobre a qual ele já ouvira muitas histórias. Os olhos direitos delas apresentavam um brilho castanho intenso, mas olhos esquerdos eram de um azul desmaiado, muito claro, como a cor do oceano gelado das regiões polares.
Mauricio falou sobre isso, mas a moça não ouviu. Talvez porque já soubesse a origem de tudo. Ela o pegou agora pela mão, que já estava quente e úmida, e continuou caminhando pelas vielas de terra. Andaram por mais de uma hora. Os núcleos de casas e os pequenos aglomerados de botecos e comércios se distanciavam, entremeados por capoeiras de mato ralo e longas extensões de capim, onde pastavam reses e bandos de cabras. Os dedos da moça haviam se entrelaçado aos de Mauricio e ele ofegava, confuso, incerto dos desejos e intenções que os moviam naquele momento.
Já era quase três da tarde e o sol estalava nos cachos de mamona.
Chegaram a uma região onde o mato se adensava e uma vegetação rasteira e dura fechava o caminho entre as árvores. Andaram alguns metros, com dificuldade, e então ela mostrou a enorme cruz de pedra, enfiada na terra e já totalmente coberta por liquens e musgo. Mauricio levou um susto. Ele já vira aquela cruz em um velho daguerreótipo descorado, que catalogara entre os documentos no sótão. Só que, em hipótese nenhuma, ela poderia estar ali.
Aquela cruz fora registrada pelo daguerreótipo num momento de luto, cercada por coroas de velório e homens e mulheres vestidos de negro. Ele estava plantada bem no meio do jardim e, ao fundo, erguia-se o casarão da família, onde agora ele morava com seus pais.
- Impossível, - disse.
- O que é impossível, - perguntou a moça, que desabotoara o botão superior da blusa, deixando aparecer o início dos seios, brancos como a lua.
- Esta cruz deveria estar em frente de minha casa e não aqui, perdida neste fim de mundo. Por tudo que sei, é debaixo dela que está enterrado um dos meus mais importantes antepassados.
A cruz não poderia ter sido retirada do pátio do casarão onde vivia e transportada para este mato ermo. Por todos os documentos, fotos, daguerreótipos e cartas que catalogara, a cruz era o marco da grande fazenda de sua família, que dera início à construção de toda a cidade.
Quando o primeiro e velho patriarca morreu, no final do século 19, ela foi erguida no jardim do casarão, para homenagear não só a ele, mas ao espírito de aventura e pioneirismo de todos os seus ancestrais.
Nas poucas vezes em que Maurício perguntou pela cruz ao seu pai, ele respondeu com segurança absoluta: “Na metade do século 20, logo depois do fim da 2ª Guerra, todos aqui passamos por grandes dificuldades e o irmão mais velho do meu pai foi obrigado a lotear e vender parte da fazenda que cercava o casarão. E foi assim que vendeu uma parte do nosso até então imenso jardim. A cruz estava plantada exatamente em um destes lotes. E como não tinha importância nenhuma para o novo proprietário, um capiau vindo de longe, acabou se quebrando. E suas pedras foram servir de alicerce para qualquer uma destas casas vizinhas”.
O pai estava tão convicto disso, que chegava à riqueza nos detalhes. Apontando para um prédio de três andares, que dava de fundos para o muro do casarão, explicou que debaixo daqueles apartamentos encontrava-se o pequeno pedaço de quintal que outrora marcava o ponto inicial da cidade.
Nunca, antes, ocorreu a Mauricio questionar esta versão oficial da história. E nada, até ali, nenhum dos documentos que catalogara ou lera permitiam mesmo qualquer questionamento.
Mas agora, vendo a cruz fincada naquele fim de mundo, foi assaltado por dúvidas de toda ordem.
O calor era intenso, os dois transpiravam e a blusa quase transparente da moça grudara-se à pele revelando todas as curvas. O cheiro que exalava dela confundiu o aturdido Mauricio e foi ele quem a puxou desta vez pelo braço, caminhando firme no meio da vegetação rala.
Cruzaram duzentos metros de arbustos e capoeiras e acabaram caindo no que parecia, de longe, os últimos restos de uma construção em ruínas. Mas agora de perto, fixando a atenção, Mauricio descobriu que aquilo era na verdade o alicerce soterrado de alguma casa muito grande, que não tinha nada a ver com aqueles casebres dali. Imaginou uma construção que nunca havia sido concluída, mas logo os detalhes do que via o obrigaram a mudar de idéia.
Os fragmentos de tijolos sobre a superfície do alicerce que emergia do solo indicavam que alguma coisa já havia sido erguida sobre ele. Em alguns dos cantos do que deveriam ter sido os cômodos da casa, encontrou ainda afixados no solo cacos de grandes ladrilhos portugueses. Sabia de sua origem: eram idênticos aos que até hoje resistiam em alguns quartos do andar térreo do casarão onde vivia.
Minutos depois, cruzando os vãos e medindo distâncias, percebeu que aquele alicerce desenhava no solo a planta exata do primeiro andar de sua casa. Assustado, Mauricio tentou dizer alguma coisa à moça, mas ela já não escutava. Respirava rápido, arfava, olhando fixamente e de um jeito quase descontrolado para o corpo de Maurício.
Sem que ele esboçasse um gesto ou dissesse qualquer coisa, ela caminhou até ele, desabotoou o zíper da calça, despiu-se apressadamente e arrancou também a roupa de Mauricio que se deixava levar.
Em pouco tempo ele já estava deitado na relva e ela cavalgava sobre ele. Foi assim que conheceu, pela primeira vez, o prazer com uma mulher. Gozou depressa, mas ela continuou cavalgando, gemendo, até que ele sentiu desejo de novo.
Ficaram assim por um tempo que até hoje Maurício não sabe o quanto foi, cinco minutos, 15 minutos, duas horas. Ela suava e se mexia muito, gemia e gritava, deixando dores que marcaram por vários dias o corpo de Mauricio.
Depois, dormiram longamente e foi ela quem acordou assustada, com o sol já quase caindo por trás das árvores. Não sei o que me aconteceu, dizia, eu nunca fiz assim. Perdi a cabeça, menino.
Ele não falava nada, apenas caminhava ao seu lado, mas sentiu que era homem pela primeira vez na vida.
Mauricio chorou muito quando, uma semana depois, ela o procurou e disse que teria que voltar na manhã seguinte para a Capital. Tinha que concluir o trabalho na universidade, mas prometeu entre juras delicadas enquanto transavam pela última vez que ainda voltaria para vê-lo. Depois, enquanto se vestia, deixou telefone e endereço e o convidou para ir logo visitá-la em São Paulo.
No exato momento em que ela partiu, Mauricio já sentiu saudades, mas não teve tempo de sofrer por isso. Nos dias seguintes, confuso e perdido, mergulhou novamente nos papéis do sótão, tentando inutilmente desvendar o segredo da cruz e das ruínas.
Um mês depois ela veio visitá-lo. Pediu para que fossem até aquelas ruínas onde haviam se amado. Transaram novamente, mas desta vez ela foi tranquila e quase discreta. Quando se preparavam para ir embora, ainda despidos, perceberam que um velho negro os observava de longe, apoiado no cabo da enxada.
Eles se vestiram rapidamente, apressaram o passo e tentaram se desviar do velho.
Mas o negro caminhou na direção deles, com pisadas largas e decididas. Disse duas palavras em um dialeto quase incompreensível e advertiu: “Moço, vocês não devem fazer isso aqui. Não devem nem aparecer por aqui, os fantasmas estão todos soltos. É muito perigoso. E ainda mais para essa moça”.
Acostumada a encontrar estas obsessões supersticiosas entre os moradores da vila, ela sorriu divertida com a máscara de pavor que tomara conta do rosto de Mauricio. Ela tentou argumentar, mas as palavras do velho o haviam deixado em pânico.
Por isso, na manhã seguinte, quando os dois se despediram na rodoviária, a moça insistiu em dizer para ele não levar tão a sério aquele misticismo fantasioso do pessoal dali. Para ela, o misticismo era resultado apenas do estado de submersão completa em que vivia aquele povo.
Mas foi contra questões de outra natureza que Mauricio se viu lutando quando ficou só. Tinha certeza que, a despeito de tudo, deveria procurar o velho. Mas o medo o paralisava. Por sete dias e sete noites insones combateu esta covardia moral e na manhã de uma quinta-feira decidiu voltar sozinho até as ruínas.
Ao longo de toda a semana seguinte repetiu inutilmente o mesmo percurso: nada demovia o velho a sair de seu silêncio. Ele respondia com monossílabos às insistentes perguntas de Mauricio, para mergulhar em seguida num mutismo que nada conseguia quebrar.
Mauricio, cansado daquilo, já estava decidido a esquecer tudo. Até que numa destas tardes em que ficava sentado olhando a perícia do negro no manejo da enxada, o velho enfim quebrou o silêncio e perguntou Ao menino se Deveras não temia conhecer a verdade.
Mauricio, perplexo é claro, garantiu que não. E insistiu até que a verdade era tudo o que buscava. O velho olhou o sol, mediu o rumo dos ventos e disse que aquele era um dia bom para isso, Os ventos estavam favorecendo a verdade.
O velho disse isso e voltou novamente ao silêncio.
Mauricio ficou ali sentado uma hora, mais que uma hora, sabe lá quanto tempo.
Mas o velho só rompeu novamente o silêncio depois de guardar as ferramentas e enfiar a marmita no embornal. Então colocou a enxada no ombro, começou a caminhar e ordenou que Maurício o seguisse.
Mauricio o seguiu com o coração disparado.
Andaram por mais de meia hora até chegarem ao barraco onde o negro vivia. O casebre tinha paredes de barro e o telhado de um sapé carcomido. Mas era estrategicamente construído no alto de um penhasco, de modo que através das janelas quem estava ali avistava todo o vale e, mais adiante, a cidade.
As paredes estavam repletas de imagens coloridas de santos. No fundo da cozinha, sobre o chão de terra batida, flores, cipós e galhos dentro de um vaso de barro espalhavam o perfume doce e delicado que Maurício sentiu desde o quintal da casa.
O velho, novamente em silêncio, debruçou o corpo sobre o vaso de plantas e com a paciência de um monge começou a retirar dali algumas flores e raízes. Ele depositava tudo aquilo, cuidadosamente, em uma panela de ferro que já ardia sobre a chapa do fogão a lenha. Por fim, verteu água e uma mistura perfumada e demorou uns quinze minutos mexendo o preparado com uma colher de pau.
O velho fazia tudo isso e murmurava palavras ininteligíveis.
Depois, tirou a panela do fogo, esperou esfriar, derramou aquela mistura numa xícara de barro e pela primeira vez falou de novo com Mauricio. Apontou para ele uma grande cadeira de palha e ordenou que sentasse, no canto quase em penumbra da sala.
Com uma pequena colher de madeira, o velho colocava gole a gole daquela infusão na boca de Mauricio. Entre uma colherada e outra emitia um suspiro profundo e perguntava com a voz tranquila se tudo ia bem. Mauricio dizia que sim com a cabeça e o velho continuava dando a ele o preparado.
Até que Maurício perdeu totalmente a consciência.
Anos depois, já vivendo na Capital, Mauricio experimentou de tudo: cogumelos, maconha, chá de lírio e até um ponto de ácido lisérgico ele tomou uma vez. Mas nenhuma destas experiências se comparou com a que ele viveu naquela tarde. Imagens nítidas e coerentes começaram a correr diante de seus olhos como em uma sala de cinema. Hoje ele suspeita que, sob o efeito da beberagem, as palavras que o velho sussurrava pausadamente em seu ouvido se transformavam em imagens dentro do cérebro.
De qualquer forma, foi sentado ali e delirado assim que Mauricio tomou consciência da verdadeira História.
As pessoas e as coisas adquiriam formas estranhas e indescritíveis.
A verdadeira essência de tudo aquilo Mauricio jamais conseguiria narrar depois.
Mas as coisas faziam sentido lógico e coerente.
A história que corria ali, diante de seus olhos, começava numa época que ele já havia catalogado minuciosamente durante o tempo que passou no sótão.
O primeiro de seus ancestrais, aquele que aportou nestas terras como o pioneiro, o verdadeiro herói da colonização, saltou do daguerreótipo desbotado e Mauricio pôde ver cada ruga de sua face.
E o que o surpreendeu não foi a roupa impecável ou desenvoltura dos gestos, mas a dupla cor dos olhos: do lado esquerdo, um olho azul e transparente, apertado e mau, como o olho de Satã; e na face direita, que era serena e lúcida, um olho castanho e amendoado como o dos santos, visionários e profetas.
Na visão que teve daquele homem, revelada pela bebida, Mauricio viu sangue, mortes e tantas coisas que jamais suspeitara.
Viu como ele emprenhava compulsivamente aqueles bandos de jovens negras e mulatas, espalhando filhas e filhos bastardos por todos os cantos da fazenda.
Viu, depois, o casarão sendo erguido por ele, pedra sobre pedra, tijolo a tijolo.
Já velho, aquele homem se tornou um senhor sereno. Chinelos estofados e pijama de linho, arrastando-se pela varanda e embalando os netos legítimos em uma grande cadeira de vime.
E as imagens continuavam correndo diante de seus olhos – ou no interior deles. Maurício viu como um dos filhos daquele homem, depois de casado e já senhor do casarão e das terras, apaixonou-se perdidamente por uma jovem mulata que vivia em um dos barracões da colônia. Descobriu, só depois de ter ficado com ela uma dezena de vezes, que aquela era uma das tantas filhas do pai, perdidas naquele mundo. A partir deste dia a moça o repudiou, mas ele a prendeu no sótão do velho casarão. Dormia com sua esposa até as nove da noite e depois se entregava a ela, obrigando-a a despudores que avançavam pela madrugada.
Dois dias depois dele ter descoberto a origem da moça, o seu velho pai que já estava completamente alheio a tudo que se passava na casa entrou em coma. Morreu na cama emitindo uivos horríveis e no lugar onde foi enterrado, no jardim do casarão, ergueram aquela grande cruz de pedra e cimento.
Conforme passava o tempo, o filho entregava-se cada vez mais à sua prisioneira no sótão. Quando descobriu que ela emprenhara, ameaçou várias vezes furar sua barriga com uma faca de cozinha. Mas ela defendeu a cria com unhas e dentes.
No dia em que pariu, ali mesmo no sótão, atirou-se pela janela e foi encontrada morta na calçada, sem ter amamentado a menina uma única vez. O homem viu na criança a marca de seu ancestral: cada um de seus olhos era de uma cor. E assim, tomado pelo desespero, decidiu assumi-la como filha legitima. Por muitos anos esta criança, gerada em um pesadelo, foi repudiada pela cidade. Mas com o tempo, sua vivacidade e a estranheza da dupla cor dos olhos, acabaram cativando até os mais renitentes. Assim, atingiu a adolescência já totalmente integrada aos hábitos e relações da família.
Aquela filha do pecado logo se revelou bem mais ativa, perspicaz e inteligente que os meninos e meninas de sua idade. Sua ambição era muito mais evidente e impulsiva que a dos demais irmãos, irmãs, primos e primas. Por isso, foi naturalmente que ela acabou assumindo a frente dos negócios da casa.
A família já crescera muito, ameaçando pulverizar com divisões e heranças a vasta propriedade amealhada pelos avôs. Talvez tenha sido isso, mais do que qualquer gesto de amor, que a levou a se casar com um de seus primos mais próximos. Naquele tempo, a região começava a ser invadida por imigrantes espanhóis e italianos e até um grupo de japoneses aportou ali para trabalhar nos cafezais que se multiplicavam.
Logo aquela gente toda se transformaria em uma séria ameaça. Queriam terra, alguns adquiriam pequenas partes de algumas que outrora haviam sido grandes fazendas. Conforme crescia ou declinava o ciclo das lavouras, muitos deles ganhavam dinheiro, outros perdiam tudo.
Mais de uma vez, em momentos de grandes crises, eles se juntavam em bandos, ameaçavam ocupar terras e se tornavam francamente agressivos. Foi numa ocasião destas que pela primeira vez se revelou uma face do Satã que aquela mulher abrigava.
Negócios escusos – que ficaram obscuros na visão que a beberagem propiciou a Mauricio e que ele não conseguiu rastrear depois – fizeram com que muito dinheiro vertesse aos cofres da família, embora as safras de dois anos consecutivos tivessem sido totalmente perdidas.
O dinheiro parecia minar através de fartas linhas de crédito oficial.
Depois, olhando aquilo nos documentos do sótão, Maurício ainda conseguiu deslindar parte dos percursos labirínticos que autorizavam a liberação daquele dinheiro, em gabinetes de autoridades, em campanhas políticas.
Com as repetidas crises, muitas famílias e grupos de famílias de imigrantes, negros e mulatos foram embora e se afundaram pelo sertão, em busca de novas terras para desbravar.
Mas muitos ficaram e a eles se juntavam outros grupos, também vindos fugidos de outras regiões em crise. E foram estes que formaram as primeiras escaramuças, tentativas de ocupação de terras e enfrentamentos.
Em algumas destas ocasiões, aquela mulher chegou a comandar diretamente quadrilhas de pistoleiros, para tirar da fazenda alguns invasores. Eles eram chamados “posseiros” e ocupavam primeiro as terras devolutas, mas não se contentavam com isso. Logo iam derrubando cercas e invadindo fazendas vizinhas.
Um dia, mais de oitenta famílias – muitas delas vindas de regiões distantes – ocuparam uma grande área recém anexada às propriedades agora já completamente dirigidas por aquela mulher.
E foi neste litígio que ela conseguiu, pela primeira vez na história das lutas pela terra ocorridas no Brasil, que tropas do exército vestidas de verde-oliva interferissem diretamente no litígio. Dizem que algumas escaramuças foram comandadas pessoalmente por aquela mulher.
Em sua beberagem, Mauricio viu como as famílias foram cercadas e dizimadas. Morreram mulheres e crianças baleadas e rasgadas por baionetas. Alguns jovens soldados até choraram por isso, mas a mulher não chorou. Sua face tornara-se dura e foi nesta época que ela decidiu ter um filho.
Sentiu, ainda no ventre, que o primeiro seria macho e o abortou. A segunda nasceu fêmea, mas marcada pelo horror: além dos olhos de diferentes cores, trazia a língua dividida ao meio e os dedos de seus pés eram unidos por uma membrana de carne. Tinha ainda duas protuberâncias bem no alto da testa e a própria mãe viu ali os indícios de um chifre.
Assim que nasceu, a menina foi aprisionada como um animal no sótão do casarão. Emitia grunhidos durante a noite toda e certa manhã, quando abriram a porta para alimentá-la, havia desaparecido sem deixar vestígios. Encontraram ali apenas o seu vestido, na verdade uma camisola tecida com panos rústicos de algodão, jogado no meio do quarto. Apenas a mãe chorou o desaparecimento da filha. Para todos os demais que sabiam de sua existência foi um alivio.
Em suas visões, Mauricio viu que a menina tinha asas, um rabo enorme e que sobrevoava o casarão e as terras da fazenda em algumas noites escuras. Anos depois, atribuiu isso às lendas que se formaram ao redor do caso. De qualquer forma, após o desaparecimento a mãe mudou completamente. Sua face ficou ainda mais dura e agressiva e ela passou a ser violenta com os animais e os funcionários, que para ela eram a mesma coisa.
Durante a noite, em sonhos, dizia frases desconexas em uma língua estranha e com uma voz grossa, que não era a sua. Nestas horas, o primo e marido acordava assustado. No começo ele ainda esperava que o desequilíbrio mental passaria com o tempo ou com as pílulas receitadas pelos médicos. Mas a loucura se agravava. Numa destas noites, ao ritmo sincopado de uma reza que ela mesma emitia, o marido viu o contorno de dois chifres, esforçando-se para emergir do alto de sua testa. A cena se repetiu inúmeras vezes, mas na manhã seguinte ela sempre voltava ao normal.
Corriam insistentes boatos de que ela se entregava, todas as tardes, a práticas orgiásticas. Deitava-se com empregados de membros avantajados e masturbava cavalos e touros na estrebaria.
Mas o primo e marido só decidiu matá-la quando copos de cristal começaram a trincar e objetos de ferro se retorciam no casarão no momento em que ela professava suas rezas noturnas. Ele se armou de um punhal de prata e o cravou no coração da mulher, enquanto ela dormia. Antes que ela desse último suspiro, todas as sombras da noite emergiram da boca, das narinas e dos olhos dela. Ele ouviu risadas, murmúrios, e as paredes do casarão vibraram como se os alicerces fossem desmoronar.
E de repente até a mata ficou em silêncio.
Mas foi uma ilusão acreditar que tudo havia acabado.
Sete dias depois do enterro, sombras de pequenos demônios, femininos e alados, começaram a ser vistos dentro e fora do casarão, quando as luzes se apagavam. Faziam festins no sótão, mas interrompiam bruscamente a baderna quando alguém acendia as luzes.
Foi então que o mistério da cruz se revelou aos olhos de Mauricio.
Desesperado e impotente diante das aparições que se tornavam mais ousadas a cada dia, o marido reuniu os parentes próximos e eles decidiram perverter a História e a geografia da cidade. Durante quase um ano, um grupo de descendentes de ex-escravos que ainda vivia num rincão isolado da fazenda e funcionários de confiança transportaram uma por uma as pedras do casarão até o local onde ele se encontra agora.
Alguns mapas e escrituras foram cuidadosamente adulterados por especialistas vindos de fora. A memória curta da população talvez seja responsável pelo esquecimento rápido em que caíram todas as mudanças e transformações realizadas por ali naqueles dias.
A esta altura já começava a se dissipar a embriaguez que o preparado causara em Maurício. E ele ouviu então a voz do velho negro que o chamava à realidade: “Até hoje alguns dos pequenos demônios vivem rondando as ruínas, em busca de um corpo para encarnar nas noites sem lua.”
Mauricio voltou para casa imaginando ter vivido um delírio gerado pela bebida do negro e por suas obsessões com os documentos e fotos do casarão. Mas, de qualquer forma, a partir daquele dia jamais voltaria a pisar no sótão. Sua mãe agradeceu, imaginando que as divindades haviam atendido suas preces.
Logo depois, num final de semana com o pai, Mauricio pediu para que ele o empregasse nos escritórios da Capital e foi prontamente atendido. Mudou-se para lá, recomeçou os estudos, e embora tivesse procurado a moça por várias vezes nos meses seguintes, nunca mais conseguiu encontrá-la. Por isso ficou surpreso, sete meses depois de tudo, quando chegou em casa num final de semana e encontrou uma carta enviada por ela.
Maurício abriu a carta, emocionado, mas seus olhos pouco a pouco foram ficando turvos. Ela dizia que não voltara a procurá-lo pois sabia que ele não aceitaria a sua decisão. Ela havia engravidado naquela primeira tarde em que transaram nas ruínas. Semanas depois, como o pai da menina já gravemente enfermo acabou morrendo e deixou uma grande herança, ela consolidou o desejo de ter o bebê. Iria tê-lo, portanto, a qualquer preço, dizia, com ou sem a aceitação de Mauricio. “A decisão é minha, jamais vou cobrar ou exigir qualquer coisa de você”. E concluía, ternamente:
- Será uma menina.
4.
CAIO ESTÁ VOANDO
Não que o pequeno Caio, no fim de tudo, tivesse sido realmente enganado. Desde o desabrochar de seus sete anos ele tinha consciência de que poderia voar, ou pelo menos imaginava isso. Mas nunca que o faria pelos braços de sua mãe, Josie Kubota.
Até para os amigos e parentes era confuso e às vezes estranho o mundo em que Josie vivia. Conhecia e falava tudo das coisas mais hi tech do mundo, transmissores, computers e até da tecnologia embarcada nos modernos caças brasileiros, com a mesma desenvoltura com que revela receitas de bolo e sukiaki. Ao mesmo tempo, distribuía livretos ingênuos da Seicho-Nô-Ie, embora praticasse religiões bem mais ocidentais.
E as mãos de Josie, na mesa de massagem, eram de habilidade incomum. Curava as dores lombares mais renitentes com dois toques dos polegares. E outros males, dito incuráveis, ela fazia reverter com poucos meses de sessões semanais.
E mesmo assim cobrava pouco já que o dinheiro tinha pouco valor para ela. Os amigos se lembram da noite em que sua casa foi assaltada. Quando chegou e percebeu tudo revirado e viu que os ladrões levaram as jóias que possuía, ergueu as mãos para o céu e agradeceu. Não por alegria de ter sido roubada, como explicaria depois, mas por ter percebido que as coisas materiais lhe despertavam quase nenhum apego.
No trato com o filho, o pequeno Caio, tinha o costume – mania, diziam os amigos – de explicar tudo o que ocorria embora ele quase nada entendesse. Jamais, como outras mulheres, disse que o pai havia morrido ou partira para uma longa viagem. Contava com paciência toda sua historia.
De modo que não apenas Caio, mas também os amigos chegados sabiam da vida de Josie. Mesmo assim, só ao filho ela parece ter confiado os detalhes mais fortes.
Diziam na cidade que até nome e sobrenome Josie havia trocado, para nunca mais reencontrar seu passado.
Nas raras vezes em que bebia, e logo ficava alta com dois ou três copos de cerveja, contava emocionada parte dos sofrimentos que a fizeram deixar tudo para trás. Ela nem entrara ainda no segundo ano do casamento e o marido passou a importuná-la com cuecas mal lavadas, camisas sujas de nanquim e atrasos na hora do almoço. Ela nunca havia suportado isso nem da mãe, a quem, no entanto, atendeu com submissão até completar 21 anos de idade. Aí, emancipada, logo se casou.
O casamento estremeceu, no começo, suas relações com o resto da família. Não por qualquer objeção formal a que ela se casasse com um brasileiro. A miscigenação do sangue seria inevitável, mais dia menos dia. Mas se viviam em uma vila onde 90% dos habitantes eram migrantes ou descendentes de japoneses, nada mais justa a expectativa dos parentes de que ela também escolhesse um de sua raça. Mas não foi este o motivo dos primeiros bate-bocas em família.
Todo mundo na vila achava que o marido de Josie tinha cara de boêmio. Era trabalhador e até bem de vida, mas gastava muitas de suas noites dedilhando viola nos bares. Sobre isso, Josie não se importava nem um pouco. Afinal, foi exatamente isso que a fizera gostar dele.
Mas, depois de casado, ele logo virou outro homem. A importunava todo dia com a comida atrasada, com as cuecas sujas, com a ração do cachorro, com o barulho na sala.
Mesmo assim, Josie permaneceu ao lado dele até o dia em que o pequeno Caio completou cinco anos de idade. Aí botou o menino no banco traseiro do velho fusca, mudou de nome, de cidade e de vida.
Já era propensa às coisas místicas e tornou-se muito mais. Descobriu esta força curativa de suas mãos em um templo Mahikari. Aprendeu a conversar com os mortos em um centro espírita e logo era visitada também por vivos, etéreos, que pousavam no terraço de seu apartamento em naves intergalácticas que só ela avistava.
E incentivava o filho nesta ilusão de que todos podemos voar. Apesar da tenra idade de Caio, ela tentava diariamente ensiná-lo a fazer viagens astrais.
Josie sempre pareceu a todos ser a senhora absoluta de si. Nunca, jamais, ninguém a viu deprimida. Daí o espanto da cidade quando a historia ocorreu.
Josie saiu de casa com sua melhor roupa. Maquiou o rosto, coisa que raramente fazia, e pediu a Caio, então com nove anos, que calçasse as botinas de festa. Subiu com ele ao último piso, no 12º andar do edifício.
Algumas pessoas nos prédios vizinhos viram como ela abraçou o menino e apertou muito forte o corpo dele junto ao seu.
Antes de se atirar, disse a Caio que iriam voar – os olhos do menino brilharam – até os braços de Deus.
Algumas pessoas bebiam cerveja no terraço do primeiro andar e ainda ouviram o grito do menino e logo o baque surdo transformando em postas de carne e sangue, os dois corpos na calçada: “Mamãe me enganoooou”.
5.
DRAKOR
DRAKOR. O demônio tem o corpo vermelho e os olhos verdes. Josuel está debruçado nele como quem se debruça sobre luzes que piscam símbolos ininteligíveis. Teria perguntado: Afinal, o que é que me trouxe aqui?
Eu responderia:...ora eu, Josuel, eu te trouxe até mim...
- Eu que te conduzo. Mas como...
-...te conduzo...
-...mas como!
Nesta zona de trevas eu me viro para Josuel e digo que este alvo (“Veja, Josuel, é um alvo”); este alvo é o objetivo e a forma de atingi-lo. Atinja o alvo e atingirás DRAKOR.
Então Josuel me responde, contemplando os demônios, peito rubro engalanado, olhos verdes:
- Os demônios nos serão inatingíveis. Cacete...
A bola de metal bate nas beiradas do aparelho de flipper. Josuel se esquece de mim. Concentrado nos botões, pulsa uma vez, duas, três. A bola resvala e Josuel explica: “Eles são dez, eles são vinte, eles são trezentos”. E os olhos, terceiros, de Josuel, estão atentos. A pelota marcou cem mil pontos e DRAKOR dá a Josuel o direito de matá-lo mais uma vez.
Muito, muito antes de conhecê-lo, eu já dizia a Josuel que, no primeiro reino, um milhão de olhos nos espreitam toda vez que vencemos. Alguns reprovam, outros cobiçam. E se há cobiça, aí sim vencemos intensamente.
Os olhos, nossos olhos, estão de olho em nós mesmos. Mas é por causa de tudo isso que começamos a nos libertar do primeiro reino, quando aprendemos a vencer. Mas aí estamos apenas no começo e nenhum de nós sabe quantos reinos virão depois.
No passado, uma sombra, que talvez fosse então o espectro de Josuel dizia: “Não há em mim nenhum conhecimento de você; e em você, também, não há o menor conhecimento de mim.”
Mas a sombra aceitava o ato que nos aproxima. Afinal, corremos os continentes em busca disso, que não encontramos em parte alguma a não ser no próprio ato de correr as cidades, paisagens e estradas. A viagem nos movia, a mim e a sombra que, hoje estou certo, era Josuel (os segredos devem ser contados em fluxos. Vinte palavras por dia, no máximo – e ao dizer isso se foi uma -. Porque esta é a única maneira de revelá-los também a quem os conta).
O primeiro reino, já falamos, é o reino das paixões.
Ali, eu e minha sombra poderíamos ter sido felizes. Mas, para isso, seria indispensável que o pêndulo permanecesse eternamente no mesmo lugar. Ora, ora, meu amigo, é da natureza do pêndulo o movimento. Ou que, pelo menos, ficasse ali na metade de seu movimento que brinca diante de nós com o espaço e com o tempo.
Mas vou estabelecer a cronologia dos fatos.
Estou novamente com minha sombra – será Josuel?
Fiquem tranquilos, agora a historia vai se tornar lógica. Ou cronológica, como convém.
O pai de Josuel foi morto pelo demônio, DRAKOR é o nome de Satã.
Josuel soube disso muito depois, aos vinte anos ou pouco mais, numa noite em que as últimas cabras davam sinais de ceder à seca que há meses castigava o sertão.
Josuel, em sua curta e sofrida vida, já havia se acostumado a isso. Mas, naquela tarde, enquanto trabalhava plantando mourões de uma velha cerca e se compadecia com a sede das cabras, foi atraído pelo ruído de um jeep e por vozes que conversavam no pasto.
Por aquelas vozes – que jamais identificamos (seriam latifundiários em busca de terras dos sertanejos? seriam agentes do governo estudando a extensão da seca?) – Josuel soube pela primeira vez da existência de cidades atrás das vilas, e de outras cidades além das cidades. Voltou mais cedo para casa e antes que sua mãe dissesse Come Josuel, o feijão está quente, ele perguntou pela primeira vez pelo nome do pai, que nunca conheceu.
Ela esperava por esta pergunta desde o dia em que viu pela primeira vez o rosto enrugado de Josuel nas mãos da parteira. E deste então, a cada tarde – e ainda mais depois que a voz dele engrossou e começaram a crescer seus pelos – ela recordava de todos os gestos, detalhe por detalhe. E foi isso o que contou para Josuel naquela noite.
E assim, antes que o dia raiasse Josuel já estava decidido e partiu em direção ao porto da Capital, onde seu pai morrera estraçalhado pelo demônio.
Dois dias depois, Josuel aportou no cais. Ao contrário de todos os outros, que diariamente chegavam ali em busca de trabalho ou de aventuras, Josuel buscava a cidade que existe por trás das cidades. E cumpriu ali todos os ritos de uma cidade do porto.
Arrastou-se como caranguejo, limpou banheiros e carregou sacos. Ficou forte, ficou homem e foi descoberto, ainda ingênuo, nos bordéis. Assim, quase sem querer, é que tomou consciência de seus dotes. Chegou a ficar arrogante por causa deles.
Mas perdeu logo a arrogância diante de homens sinistros. E foi um deles, um velho navegante escocês, que restituiu a razão a Josuel.
Àquela altura ele já tinha perdido completamente a lembrança e a consciência do motivo que o trouxera até as docas. Certamente foi por isso que, quando no final de mais uma madrugada de bebedeira e briga o escocês meteu os dois canos de um trabuco enferrujado na testa de Josuel, Josuel afastou as duas mulheres que o abraçavam na porta do bordel e decidiu que seria melhor morrer.
Ele olhou as voçorocas que sulcavam a pele do rosto, uma cicatriz rasgada logo debaixo do olho esquerdo e feridas supurando no meio dos pelos da barba do escocês.
Eu penso que foi nesta hora que ele aceitou pela primeira vez a fragilidade trágica da condição humana, e decidiu que seria melhor morrer.
O fato é que Josuel vira poucos mortos e poucos enterros e ainda não suspeitava que, debaixo da terra, o corpo dos homens apodrece e fede mais do que a cara do escocês que lhe apontava o trabuco naquele momento.
- Aperta o gatilho, seu filho da puta! Atira – berrou Josuel.
Mas o que aconteceu foi o contrário.
O rosto crispado do escocês se distendeu aos poucos. Ele cravou os olhos azuis em Josuel, com a arma ainda apontada para ele, e lentamente foi baixando o trabuco. E então quase sorriu:
- Moço, de onde você vem?
Como num estalo, naquele momento Josuel se lembrou de tudo.
Ele olhou os olhos e a face do escocês que se distendiam. E quase perdeu o nojo.
E como se respondesse para si mesmo, falou e falou. Falou da mãe, das cabras, do jeep. Falou da cerca, da seca, da fome. Falou do governo e das docas do porto.
E assim foi se lembrando claramente do motivo que o havia trazido até o porto. Mas isso ele não contou para o escocês.
Então o escocês desengatilhou a pistola e, enquanto ouvia, tirou do trabuco uma a uma as balas que estavam ali.
Quando viu as balas, Josuel teve a certeza de que já poderia estar morto.
- Moço – disse o escocês – estou te esperando há muito tempo. Eu fui o melhor seguidor do teu pai.
Assim, a razão estava definitivamente restituída a Josuel.
O velho escocês o pegou pelo braço e arrastou para dentro do cabaré. Pediu um balde de cerveja e começou a contar:
Josuel bebeu e ouviu: “Eu tinha pouco mais de trinta e oito anos e aquela era minha primeira viagem ao Brasil. Não me fascinaram as paisagens e matas, como fascinam hoje aos poucos patrícios que vez ou outra encontro, de longe, por estes cantos. E quer saber a verdade? Também não me fascinei nem um pouco pelas mulheres daqui. Mais belas e hábeis, encontrei nos portos do Oriente e namorei com elas em praias mais ermas e oceanos transparentes. Aqui neste porto, onde nós dois estamos agora, eu me fascinei apenas por alguns cheiros desconhecidos e pela historia casual de um homem. Olhe para mim: este homem era seu pai, e eu estou certo disso.”
As feridas voltaram a supurar debaixo da barba do escocês. Josuel já não sentia nojo, ficou quieto e continuou ouvindo: “Conheci teu pai numa destas baixadas das docas. Esteja certo: naquela noite e naquele tempo eu ainda esbanjava valentia. Estou no mar desde moleque e sei as línguas e magias de todos os continentes do mundo. Vi cadáveres ressuscitando na África, magos espadachins cortando correntes com seus estiletes de pau, encantadores de serpentes, homens que flutuavam em tapetes. Vi tudo, meu filho, e nunca acreditei em nada. A minha descrença via sempre nestes magos apenas a sombra de qualquer pecado.”
O escocês havia fumado muito, ao longo daquela noite e ao longo da vida, e o seu peito arfava. “Naquele dia em que vi seu pai eu já passava dos quarenta anos”, continuou ele. “E para quem é descrente, depois desta idade a descrença só aumenta. Pairava pesadamente sobre mim esta sombra que paira sobre os homens sem fé.”
Josuel nunca pensou sobre a fé. Nunca imaginou se teve ou não teve fé e, portanto, a história daquela sombra era totalmente irreal para ele.
Mas continuou a ouvir o escocês: “Eu e dois amigos, destes que a gente encontra apenas por uma noite, decidimos ir até o barracão onde seu pai vivia. Já tínhamos bebido além da conta, aqui, nestas mesmas mesas onde eu e você, menino, bebemos agora.”
- Você deve saber a lenda que pairava ao redor de seu pai – o escocês enfiava o dedo extremamente enrugado e nodoso quase no meio da cara de Josuel.
Mas Josuel não tinha a menor noção do quê o cara falava. Sequer imaginava quem fora seu pai.
- ... teu pai lia o futuro nas mãos e não errava nunca. Acertava às vezes o dia e a hora exata do sucesso ou da morte de alguém. E curava feridas e cicatrizava paixões com delicados emplastos de ervas. Ele se tornou um santo para os homens e as mulheres daqui, embora não fosse a cara de um santo a que eu vi quando o encontrei pela primeira vez naquela noite. Uma cicatriz enorme latejava debaixo do olho esquerdo e erosões sulcavam o rosto dele, de alto a baixo.
Josuel o rosto do escocês e manteve um profundo silêncio.
“Talvez o teu pai não fizesse a barba porque temia machucar as feridas que supuravam em cima da pele. Na verdade eu tive nojo da figura dele, na primeira vez que o encontrei. Lembro como se fosse agora: eu e meus amigos chegamos, trançando um pouco as pernas, no barracão onde ele atendia. Vinha lá de dentro um ritmo surdo de atabaques e muitas vozes em cantoria. Foi quando entramos que eu vi ele acompanhando a música quase que totalmente imóvel, apenas o pé esquerdo batendo levemente no chão, no ritmo dos instrumentos. Em frente dele, as pessoas dançavam. Alguém se debatia no terreiro de areia, ao lado de um simulacro de altar. Velas acesas, imagens, flores já quase murchas. Diante de tudo que eu já vira no mundo, o ritual me pareceu simplório e quase estúpido. Mas eu estava alegre e acabei sentando com meus amigos num banco de madeira, apinhado de gente. Logo começaram a rodar, passando de mão em mão, um chifre de boi cheio de um vinho doce, branco e vagabundo. O chifre rodava e eu ria muito e falava alto. Depois, quando a lua alcançou o meio do céu, todo mundo saiu do barracão e foi para o quintal, na verdade uma clareira cheia de pequenos altares no meio de um mato denso. Nós fomos atrás.
Alguma coisa mudara radicalmente no semblante do escocês. Os olhos dele estavam extremamente azuis e tranquilos. E ele falava de uma maneira mansa e pausada. Como um professor, pensou Josuel que nunca tivera estudo nenhum.
“Ali naquele quintal nós vimos uma sessão de contorções e flagelos. Homens e mulheres se jogavam para o alto e depois despencavam na areia como sacos de batata. Eles bebiam muita aguardente. De repente uma mulher saiu não sei de onde e começou a sentar no colo dos homens, falando coisas que eu não entendia. Os cabelos dela já eram prateados nas têmporas. Quando ela sentou no meu colo, não sei se recitou mesmo ou se eu, bêbado como estava, apenas ouvi o poema decorado O que procuras em ti ou fora de teu ser restrito, esta riqueza sobrante nos diamantes, esta ciência sublime mas hermética, só em mim encontrarás. Só me lembro que ela espalmou a mão sobre o ventre, que chegou a um dedo de minha face Pó de tumbas, já se permite azul, risco de pombas. Eu ria e ria diante do que imagina o excesso de cupidez daquela mulher, já quase velha, oferecendo o corpo no meio de tanta gente. Pensei em uma ostra murcha, mas ela rodopiou sobre os calcanhares e antes que eu pudesse acompanhar seus giros um rapaz negro se ajoelhou na frente das minhas pernas. Começou a me dar conselhos, coisas eu sequer me lembro. Falava sobre a cerimônia de olhar no coração da rosa, colher suas pétalas, lançar em campos de trigo... qualquer babaquice assim, pensava naquela hora. Hoje imagino um sacerdote de pelos brancos de lã, um calção de veludo preto, quatro camisas da Bretanha, um negro por nome Caetano de nação angola, como o inventario de um poeta morto. E brasileiro”.
Para Josuel, o escocês já delirava àquela altura.
O escocês percebeu, ficou um minuto em silêncio olhando algum ponto da parede, mas logo voltou à carga:
- Depois, já bem de madrugada, começaram a servir umas cuias de carne moída de cabrito com farinha apimentada. As pessoas comiam muito... e aos poucos foram saindo. Quando já não havia quase ninguém, eu e meus amigos também nos preparamos para ir embora. Mas seu pai disse Não, vocês ficam. Eu ri. Poderia ter partido, mas não fui. Ele fez um sinal com a cabeça e os dois homens que o acompanhavam me pegaram gentilmente pelo braço. Então nós voltamos ao barracão. Eu estava calmo, mas meus dois amigos estavam em pânico. Vi nos olhos deles um medo tão profundo que tentei tranquilizar, mostrando discretamente o cabo da pistola que trazia enfiada no cós da calça. Seu pai estava no centro do terreiro, sentado em uma cadeira de madeira e palha. E aqueles homens que o seguiam, fieis escudeiros, nos colocaram frente a frente, a menos de dez passos dele. Então os homens começaram a entoar uma canção lenta e suave e, diante de nossos olhos, o rosto do seu pai rapidamente assumiu uma centena de fisionomias diferentes. Muitas delas eu conhecia de um passado distante e outras tantas nunca vi. Ou se vi não me recordo, mesmo porque a velocidade das mudanças não dava tempo para que víssemos detalhe nenhum. A certa altura, o rosto de um animal emergiu do rosto de seu pai. E, logo em seguida, o rosto dele se transformou no rosto de um velho.
Josuel, é claro, a esta altura achou que o escocês era um louco. Mas viu a cerveja espumando no balde, serviu um copo e continuou: “Com aquele rosto de velho, o teu pai dizia coisas da minha vida pregressa e da minha vida futura. Apalpei o cabo da pistola, mas logo me toquei que a arma que eu trazia na cinta já perdera todo valor. Naquele instante ele voltou a ser o que era. Apenas a cicatriz, debaixo do olho, ficou mais profunda. Com a voz alterada, ele pediu que eu sacasse a arma. Relutei. Ele ordenou, já aos gritos. Balbuciei alguma coisa, mas quase enfurecido ele exigiu que eu apontasse a pistola para ele. Ele vomitou uma baba espessa, da cor do fogo, e a aparou com as mãos. Os homens que o seguiam beberam dela e então ele mandou que eu atirasse. Apertei o gatilho. Mas antes que a bala chegasse ao seu peito, ela se desviou e atingiu as tábuas do telhado. Ele ordenou mais uma vez e novamente atirei. Era impossível errar. Estava a menos de três metros dele pai e jamais em minha vida errei um alvo a menos de trinta metros. Ele ordenou e continuei atirando. As balas ricocheteavam em alguma coisa invisível diante dele e se alojavam nas paredes, no teto, no solo. Tomado pelo pavor comecei a disparar alucinadamente até descarregar a arma. Os dois marinheiros que me acompanhavam saíram correndo. Teu pai voltara completamente ao normal e ria. Um dos homens que o acompanhavam sacou um punhal e aproximou-se de mim. Eu sentia o sangue pulsando descompassado por todas as veias, mas me mantive firme, plantado no chão, embora as pernas já nem quase sustentassem o meu corpo. Teu pai encostou a ponta do punhal abaixo do meu olho esquerdo e lentamente talhou o meu rosto, deixando para sempre esta cicatriz”, disse o escocês, apontando o rosto.
“Como todo mundo por aqui sabe”, continuou, “a partir daquele dia eu me tornei o principal seguidor do teu pai. Acompanhei ele diariamente, todas as horas de cada dia. Vi, centenas de vezes, ele repetindo aquele mesmo ritual com outras centenas de homens: balas de revólveres, trabucos, garruchas, pistolas ricocheteando num escudo invisível. Até o dia em que vi uma bala arrebentar os miolos dele. Eu estava do lado do teu pai e pedaços de cérebro respingaram em meu rosto, na minha camisa. A partir daí, eu e todos os homens e mulheres que o seguiam ficamos desamparados. Tomado por uma vaidade de discípulo, ainda tentei ocupar o lugar dele. Mas o máximo que consegui foram algumas curas banais com ervas. E acho que testei errado tantas das receitas que ele tinha, que acabei ganhando estas pústulas que até hoje marcam meu rosto.”
Josuel já havia perdido o nojo delas. Mas agora o nojo voltou.
“Quando descobri que nem eu e nem ninguém daqui jamais iria substituir o teu pai, decidi ir em busca dos filhos e filhas dele, seus irmãos e irmãs. Acredite, são muitos espalhados por esse mundo de meu Deus e eu cruzei com vários deles. Mas me pareceram covardes, todos, e em nenhum deles eu vi nada que me fizesse lembrar teu pai. E nenhum deles tinha este esboço de cicatriz que você traz debaixo do olho esquerdo, como ele, como eu agora...”
Josuel passou a ponta dos dedos sobre aquela marca de nascença da qual já se havia esquecido.
“... não imagino nada, meu filho!,” intimou escocês. “Nada sei do que deva ser o seu destino daqui pra frente. Já pensei, um dia no passado, que algum de seus irmãos deveria ser corajoso o suficiente para matar o assassino do seu pai. Mas, hoje, nem penso mais nisso.”
A partir daí o escocês ficou em silêncio. Bebeu assim, sem dizer mais uma única palavra, tragando compulsivamente o cachimbo até o dia raiar.
E foi desta maneira que o desejo de matar um homem insinuou-se pela primeira vez no coração de Josuel.
Eu o vejo agora, digladiando com os botões do flipper para vencer DRAKOR. E digo a ele, em pé ao seu lado, que descobri a essência do 2º reino.
Creio, na verdade, que descobrimos juntos o 2º reino, no dia em que nos encontramos.
Completamente sozinhos, observamos o movimento do pendulo, mas já não mais participamos dele.
As paixões perderam o valor e podemos nos entregar a qualquer vicio ou perversão, sem nos escravizarmos a eles.
A vida, como a superfície de um oceano infinito e calmo, chega a ser quase tediosa.
Nosso coração bate lentamente como o de um assassino após o crime.
Josuel entende estas coisas perfeitamente, embora seja tão diferente de mim.
Eu converso com ele, da mesma forma como contei tudo o que sei a ele, no dia em que nos vimos pela primeira vez... a historia daquele homem estendido na gaveta do necrotério, diante de nós.
Foi a história deste homem que me aproximou de Josuel.
E é essa a história que vou contar para vocês agora.
Havia na capital um homem que era o senhor do milagre.
Vigário de uma pequena paróquia do subúrbio descobriu ainda no seminário que Deus – ou a Virgem Maria de quem era fervoroso devoto – havia lhe concedido o dom da cura com a simples imposição das mãos.
Seus superiores o aconselharam a nunca abusar deste ou de qualquer outro dom concedido pelo divino.
Ele foi seminarista fervoroso, vigário, e conquistou sua paróquia quando era ainda muito jovem.
Enquanto amadurecia na fé, outras virtudes de santo se manifestaram nele.
Uma delas, talvez a mais importante porque foi responsável por tudo o que ocorreu depois, era aquela que permitia a ele descobrir nos homens e nos lugares a presença de Satã. Ou de seus emissários.
Aos leigos, aos simples mortais que oram nas capelas dos subúrbios, muito pouco a Igreja revela sobre estes mistérios. Os mistérios da Santa Madre Igreja não cabem ao homem comum, e é melhor que seja assim.
Mas, no caso deste nosso homem, muitos fieis sabiam que ele era chamado com frequência por seus superiores para responder sobre muitos de seus atos. Não raro, ele se ausentava por semanas seguidas e corriam nos bastidores da paróquia histórias de que até o Vaticano o chamava para pedir explicações.
Ele voltava destas viagens com o semblante exausto, mas logo a lida diária ao lado de tantos fieis restituía a sua energia.
Seus poderes de cura aumentavam a cada dia.
Morféticos, cancerosos e aleijados vinham de longe em busca de sua benção.
Alguns ouviam sua voz e já se diziam curados. Certamente foi isso o que levou alguns fieis, vindos de longe, a gravarem os sermões dele para levá-los em fitas cassete aos parentes distantes enfermos.
A fama deste homem já havia ultrapassado há muito as fronteiras de sua paróquia quando noticias sobre o pai de Josuel começaram a chegar com insistência até a Capital.
Na primeira vez que ouviu a notícia, o padre ficou profundamente irritado. Os seus fieis falavam de uma cura impossível, de um suposto milagre que o pai de Josuel teria realizado.
E ao longo dos meses seguintes, a irritação do padre aumentou a cada dia. Alguns de seus próprios fieis vieram curados depois de passarem por aquele terreiro no cais do porto e, mesmo que negassem ter buscado o pai de Josuel, o padre pressentia que a mão de Satã havia se aproximado deles.
Com o tempo, alguns outrora fervorosos fieis acabaram se afastando da paróquia.
Por fim, até hoje ninguém sabe se foi o pecado da vaidade ou a consciência e o dever da fé que o levaram, naquela noite, até o porto.
O padre invadiu os domínios de Satã armado apenas com suas rezas e paramentos. Ele acompanhou com os olhos semicerrados os rituais que se arrastaram até tarde da noite. No meio da madrugada, quando todos já haviam partido, finalmente o padre viu frente a frente o rosto do demônio.
Ele já conhecia o poder de Satã e por isso não ficou assustado quando aquele rosto transformou-se na face de todos os fieis que o haviam abandonado. Resistiu a esta e a inúmeras outras provações, certo de que a qualquer momento uma voz divina lhe diria o que deveria fazer.
Mas não resistiu ao impulso que o levou a apertar o gatilho. Alguém colocou uma pistola em suas mãos e o pai de Josuel, oferecendo a cabeça, ordenou que atirasse. Foi um único disparo, o erro cometido em uma fração de segundo. O cérebro do demônio abriu-se espalhando miolos e sangue.
Um marinheiro escocês, a única testemunha de tudo, atirou-se sobre o pároco e o espancou até quase a morte. Foi salvo pela policia que chegou atraída pelo estampido e pelos gritos.
Muitas versões correram depois, mas nenhuma delas foi confirmada pelo escocês. Dizem que o pai de Josuel, já com os miolos estourados, ainda se levantou e caminhou três passos em direção ao seu assassino. Teria dito: “Já havias quase alcançado a liberdade e mais uma vez te escravizas”. Esta imagem e estas palavras, segundo alguns, perseguiram o pároco ao longo dos anos em que ele passou na prisão. Acordava com gritos horríveis, atacado pelo pesadelo.
O assassinato, o julgamento e a condenação, provocaram não só esta exposição pública do padre, mas também investigações sigilosas realizadas em segredo pelos mais altos escalões da Igreja.
A aura de santidade deste homem foi assim destruída.
Descobriu-se que, há muitos anos, a concupiscência o havia levado a manter relações carnais com uma de suas jovens paroquianas. Desta ligação do pecado, tiveram um filho que se manteve oculto da maledicência popular até o dia em que estes fatos se tornaram públicos.
...Josuel está debruçado sobre a máquina de flipper. Venceu DRAKOR mais uma vez. “Compreendes agora, Josuel, a raiz de meu segredo?”, pergunto. Ele está concentrado nos botões e nas luzes que piscam signos ininteligíveis. Mas sei que me escuta: “Eu sou o filho deste pecado, o filho do homem que matou o teu pai.”
E agora, junto de ti, sou levado á essência do 3º reino...
- ... veja Josuel, o peito de DRAKOR é um alvo...
- ... no 3º reino estamos envoltos por uma lucidez de delírio.
Assim como, um dia, o homem temeu sua própria carne pois ela anunciava os desejos, hoje ele teme perceber de um só golpe – como fazes tu agora diante da imagem de DRAKOR – as inúmeras faces de todas as coisas do mundo.
- ... Josuel, a nossa lucidez de delírio foi transformada no grande pecado, às 3 horas desta tarde de quinta-feira.
Muitos anos depois de tudo que ocorreu ao pároco, quando o assassino, o escândalo e a prisão já haviam sido esquecidos, um artifício eletrônico afogou a última esperança que alguns de seus fieis mais crédulos ainda alimentavam.
O filho de um destes, que havia digitalizado todas as fitas com as falas do padre, inadvertidamente fez tocar ao contrário um sermão inflamado. E o que se ouviu foram terríveis invocações ao demônio. Como se uma força maligna utilizasse a voz deste homem para conclamar seus seguidores à violência e ao pecado.
Até que, nesta quinta-feira feira, uma noticia que já não interessa a mais ninguém, impressa em corpos miúdos no pé da página de policia de alguns jornais, informava a morte do padre dentro de sua cela na penitenciária.
Suicidou-se enforcado em uma corda de lençóis.
A notícia despertou apenas a atenção de dois jovens que, movidos por interesses tão iguais e tão diferentes, se encontraram no necrotério ás 3 horas da tarde. Os dois não conversavam entre si, o que permite concluir que não se conheciam. Mas saíram, ambos de cabeça baixa, muito juntos. Quase encostavam os ombros, e dirigiram-se à casa de diversões eletrônicas no lado oposto da rua.
Ficaram ali, durante mais de 12 horas seguidas, digladiando com uma única máquina de flipper.
- ...aqui, Josuel, diante de DRAKOR, não há mortos ou matadores, demônios ou inocentes.
6.
SANGUE DE BETERRABAS
Ao amigo AlaorRogério lia Trumam Capote – ou será Normam Mailler? – sentado na poltrona do lado da mesa de jantar, quando decidiu matá-la. As obsessões do personagem do livro o arrastavam para algum ponto denso dentro de si, ou dentro dele, o personagem. Esticou a perna esquerda e a repousou, pelo tornozelo, na ponta da banqueta que se encontrava diante de sua cadeira. Cruzou a perna direita, apoiando-a no joelho esquerdo. Mas o corpo ainda estava extremamente sensível. Havia fumado o cigarro de maconha há bem mais de uma hora, mas a erva era das fortes. Por isso o peso da perna direita sobre o joelho esquerdo pareceu insuportável para Rogério. Decidiu mudar a posição, esticando a perna direita sobre a mesa. Tudo isso, é claro, sem tirar os olhos do livro. E então bateu a perna em uma pequena terrina que sobrara do jantar, com o resto de um molho frio e extremamente vermelho de beterrabas. O molho caiu sobre a barra de sua calça e esparramou-se pelos ladrilhos, formando uma poça de vermelho intenso, bela como Rogério jamais vira.
Ao que tudo indica, foi neste momento que decidiu matá-la. Ou não: já havia decidido antes, ainda nos primeiros capítulos do livro, no inicio da tarde, quando a casa se enchera de crianças, casais de bochechas rosadas e felizes diante da carne que queimava na churrasqueira.
Horas depois, como muitos ali eram vegetarianos e vegetarianas, resolveram cozinhar beterrabas, ferver batatas e cebolas. Não que as coisas fossem tão terríveis para Rogério naquele clima de felicidade dominical. Mas já fazia três anos que as noites de domingo se transformaram para ele em imagens terríveis das novelas de terror. Ele não sabia por que, mas por via das dúvidas se defendia lendo Trumam Capote – ou será Norman Mailler? – desde as primeiras horas do dia, deitado no sofá da sala. E nem por isso deixou de ouvir os grupos de mulheres, homens, às vezes homens e mulheres que se formavam e murmuravam pelos cantos da casa, contando histórias, destilando venenos e relembrando raros desejos sinceros.
Circulavam pela casa bandos de parentes e filhos de parentes e parentes esquecidos, como numa história de terror das noites de domingo.
Nos últimos meses só uma coisa o havia salvado desta tragédia. O amor, jamais revelado, por uma outra mulher. Ora, amor! Jamais pude saber exatamente o que tu viste em mim, desejo puro ou o pequeno poder que detive sobre o teu futuro, atrás da escrivaninha da empresa onde tu te esforças para realizar antes do tempo a brilhante carreira sonhada pelos teus pais. De todo jeito, este amor restituíra a dignidade moral de Rogério. Quando pensou que foi a cobiça pelo poder que a fez se aproximar dele, Rogério sentiu medo. Daí cogitou que o medo era uma tentativa de desacreditar no amor. E isso sim, pensou, era a verdadeira face do medo. Então, é claro que Rogério estava com muito medo.
E aí, lendo sofregamente os capítulos de Trumam Capote (?), criou uma imagem que o acalmava: a partir do momento em que ela observou em mim esta imagem de poder, era exatamente porque me amava. Afinal encontrava em mim alguns fragmentos desta coisa que eu nunca tive – o poder – e o ato de ver isso em mim talvez fosse apenas um jeito de me amar.
Então Rogério imaginou que ela poderia amá-lo em qualquer circunstância, caralho! Mas a mancha de beterraba nos ladrilhos o levou a pensar em outras coisas. A esposa deitada na cama dormia agora, depois de ter-lhe enchido o saco por restos de cerveja no copo, por descuidos com as cinzas do cigarro, sapatos sujos de barro. As esposas, a determinada altura, insistem em tratar seus maridos como tratam os filhos, exatamente para que eles as tratem como os papais tratam meninas mimadas. Mas não são todos os maridos que suportam isso, dizia Rogério, pensando estas coisas banais, enquanto lia Norman Mailler. De qualquer forma foi mais ou menos a esta altura dos acontecimentos que ele teve a idéia de matá-la. Pensou em deixar para o domingo seguinte, de forma a não decepcionar ninguém. Teria tempo de planejar o homicídio.
Mas morre-se por tão pouco, nos livros de Norman Mailler, ou Trumam Capote, como nos filmes de Copolla e Tarantino, que Rogério novamente refletiu: aceitaria o amor de outra mulher, ririam sobre o passado e então ela, sua esposa, estaria guilhotinada com uma navalha na garganta. Uma lembrança confinada para o final das noites de domingo.
Neste momento apareceram cinco assombrações para Rogério. Elas se penduraram como jacarés em seu ombro, querendo acompanhar a leitura do livro. O cachorro da casa ganiu no quintal. Algumas pessoas ainda riam no terraço, mas não se deram conta. A esposa levantou-se de camisola e Rogério viu nisso uma forma de provocar sexualmente alguns visitantes que já estavam bêbados. Ela perguntou se havia comida para o cão. Rogério disse, sem levantar os olhos do livro: “Procure”. Ela foi ate a cozinha, silenciou os homens no terraço ao passar pela porta empinando a bunda sem calcinhas sob a camisola, e começou abrir uma lata de sardinhas. Rogério protestou: “É o meu almoço de amanhã”.
Ela não respondeu.
Abriu a lata até o fim e começou a misturar as sardinhas com restos de arroz e beterrabas. As assombrações ainda avisaram Rogério que esta lucidez excessiva pode ser a encarnação do demônio. Mesmo assim ele levantou da cadeira, caminhou até a cozinha com o livro na mão esquerda e sem tirar os olhos do capítulo final, agarrou a lata vazia de sardinhas. Aproximou-se da esposa a ponto de sentir o cheiro forte do desejo que brotava por baixo da camisola e, com um gesto rápido e certeiro, degolou-a.
7.
A VIAGEM DE CAUSTO
Tudo corria natural naquela sala e nada se ouvia além de alguns ruídos estranhos que às vezes faziam fundo aos suspiros relaxados que eu soltava como baforadas de charutos cubanos, névoas do tempo, densidade do mel pelo ar.
Acendo o cigarro e dou uma tragada forte.
Neste instante, a figura esquálida e espectral do meu tio Causto, falecido há dez dias, senta-se ao meu lado. Ofereço a ele o cigarro, mas ele não parece nem um pouco interessado no ritual. Estou chegando ao pior que pode me acontecer, penso: aquele ponto onde começo a me sentir solitário no meio da conversa, como num monólogo; um monótono monólogo.
Tento me livrar da letargia que aos poucos vai chegando. A sensemilla é uma poderosa aliada nesta luta invisível. Porém o silêncio que agora tomou conta de Causto, junto ao seu olhar baço e perdido nos horizontes da janela congelada pela neve que cai, me joga novamente para dentro de mim. E neste poço de imagens despenco, bêbado do esforço de permanecer ali, naquela poltrona de couro cujos desenhos mexicanos me incomodam os cotovelos. Sinto frio, talvez o heater não esteja funcionando, teima em dar apitos desencontrados. Sim, deve ser mesmo esta merda de aparelho. Preciso falar com Charita amanhã bem cedo. Ei, tio, no que está pensando? As olheiras azuladas voltam-se e varam-me sem expressão. Desisto. O melhor mesmo é me calar. Deve ser a viagem, o casaco, as malas, o indefectível conhaque, os cigarros jamaicanos; enfim, outro mundo, cheiros, visões e este relembrar eterno. Que durma, então, e não fique aí me olhando com estes seus olhos de ator aposentado.
Ouço passos no corredor. Somente Pátria pisa desta maneira. O prédio geme com os tacos pontiagudos e ritmados até que o barulho da chave girando vem confirmar minhas suspeitas. Tio Causto sacode-se num espasmo que me assusta. Até a pouco, não fosse pelo olhar esquisito, parecia perfeitamente bem. Até para as olheiras eu já tinha dado o diagnóstico: canseira pura. Mas agora esta tosse contorcida me provoca espanto.
- Papacito, tienes companhia! Sú tio que me hablastes pela mañana? Si? Que belo, tan guapo! Como nunca me disseste, niño! – e, com a mesma pressa, Pátria se vira: - Podem me esperar. Voy a venda do Branco, buscar uma bebida, e volto em seguida.
O furacão caribenho saiu pela porta de serviço em direção a Cuba, República Dominicana, talvez Jamaica (não, Jamaica não!, por Dios, no!). Olhei em direção às bacias já quase cheias num canto da sala. O líquido escuro como borra de café, embora menos espesso, não parava de pingar pelos canos de sprinkler há alguns dias. Mas agora vêm os fios que vão aumentando e as vasilhas que colocamos embaixo enchem muito mais depressa. Temo que o barulho das gotas atormente o repouso do meu tio Causto, ele que precisa tanto de um bom sono. Mas tio Causto continua absorto em seus mundos, talvez por causa dos cigarros que havia fumado. Penso que devo subir e falar com a sindica sobre mais este problema – que diabos – outra porto-riquenha louca é tudo o que me faltava. E é só isso que encontro por aqui.
O telefone toca. A máquina emite seus sinais e começa a gravar. Corro até lá. É Pocho. Finalmente alguém são, penso, mas é um engano total: está bêbado, no Kenny’s. Ouço também, ao fundo, a voz de Rick, o que é mau sinal.
- Ei, Pocho, venham para cá. Vocês precisam conhecer meu tio Causto. Acaba de chegar do Brasil, uma raridade. Ah! E outra coisa, lembra daquela goteira de merda? Pois é, aumentou e tá inundando tudo. Você que é amigo da Lonny, que é amiga de Charita, bem que podia me ajudar... Certo, você está contente, tudo bem, reencontrou Maria, mas bem podiam continuar bebendo aqui.
Pelo que entendi ele viriam, mas não agora.
Seria pior, chegariam de madrugada, talvez com meu tio já na cama.
Mas então o furacão caribenho voltou a invadir a sala com alguns pacotes, um xale preto cobrindo a cabeça. Estou feito, pensei!
Passo a mão no violão e dedilho uma valsa antiga, “Branca”, que minha tia Áurea gostava de ouvir e cantarolava: “Lá, pra, pra”, a boca só de gengivas. Começo a sentir a nostalgia chegando devagar. Paro com o violão e tento bater um ritmo forte na guitarra elétrica para ver se espanto os espíritos que se aproximaram. Tio Causto me fita com suas olheiras profundas, a sobrancelha direita ligeiramente arqueada numa inquisição surda e perene, a boca retorcida num esgar de asco. Não sei o que tocar para ele. Se soubesse, executaria um clássico erudito ou as Bachianas de Vila Lobos.
Resolvo deixar para mais tarde a questão da estranha goteira e cuidar do conforto de meu tio. Ele fala com Pátria, na cozinha, alguma coisa sobre o frio de Nova Yorque, o maior do mundo ou coisas deste tipo. Ela acredita que Causto está vivo e sentindo a solidão que o acompanha segura fortemente suas mãos congeladas.
- Niño, como hace frio. Paolo, hei, anda. Empresta-lhe sus guantes.
Eu me levanto e faço a vontade de Pátria, embora saiba que de nada adiantará. Meu tio tem o olhar vidrado e distante e lembra muito um cão fila brasileiro, no dia em que o deixei como presente ao veterinário. Seus olhos entenderam e ficaram tristes. Agora sim, a nostalgia vai me pegar!
Com certeza ele gostou da música e eu senti isso quando ouvi novamente sua voz. Contava para Pátria a noite em que a nossa velha tia Áurea havia morrido.
Tia Áurea já estertorava no leito e, naqueles últimos momentos, chamou a mim e ao tio Causto. Segurou fortemente nossas mãos e, com os olhos cinzentos e franzidos, o longo cabelo desgrenhado e a boca murcha, pediu com a voz fraca: “Só um traguinho. Minha garganta está tão seca”! Causto a olhou por instantes, como se atuasse em um palco qualquer de um teatro repleto. Deu meia volta e se foi. Me chamou da cozinha e quando eu cheguei ordenou: “Corta bem fino este rolo de fumo que eu vou ver onde está a cachaça que ela escondeu”. Nossas velhas tias, irmãs de Áurea, dormiam no quarto ao fundo do corredor, banhadas pela luz avermelhada que iluminava a imagem de um santo posto no alto da parede. Causto voltou com um litro na mão e parece que já havia tomado uns tragos. Seus olhos estavam injetados e trazia uma colher de sopa, prateada, em uma das mãos. Acabei de enrolar o fumo de corda numa folha de palha de milho enquanto ele preparava um mais gordo, de marijuana, para nós. E fomos para o lado de tia Áurea. Sua mão direita estava levantada, esquadrinhando o ar, como se buscasse tocar em alguma coisa que só ela podia ver. Causto encheu a colher como um verdadeiro barman. Chamou, baixinho, por tia Áurea. Ela não enxergou, mas sentiu o cheiro e no mesmo instante abriu a boca e lambeu até a ultima gota. Acendemos os cigarros e ela deu as primeiras baforadas. O cheiro forte invadiu o quarto e logo a casa toda. Ficamos ali os três, pela madrugada rindo muito e conversando sobre a vida, religião...
Pela manhã, pouco antes das nove horas, voltamos do bar que fica na rua em frente. Tínhamos ido até ali tomar cerveja e comer algo, enquanto Áurea dormia. Quando chegamos, o alvoroço tomava conta da casa. As tias gritavam e choravam, anunciando para todos que Áurea estava morta. Um lençol muito alvo a cobria, mas podíamos ver sua expressão de tranquilidade e paz. Um velho papagaio que fora sua companhia nos últimos anos, chamava aos berros, Áurea, Áurea.
Definitivamente meu tio despertava do torpor que o tomou antes do telefonema de Pocho. Já notara a presença da coisa preta que insistia em cair pelos canos. Com a voz impostada disse que nossa obrigação – dos três – era subir ao andar de cima e verificar a razão daquilo. Já passa da meia-noite e esta é uma cidade que não para. O ruído das sirenes entra forte e sobe as escadas do velho prédio. Não conheço quem vive no andar de cima do nosso apartamento, se é que este cubículo pode ser chamado assim. Há um movimento intenso de pessoas, que entram e saem, de noite e de dia. A única que conheço é Lonny, a ruiva do quarto a esquerda, amiga de Pocho que às vezes para para conversar com Pátria ou se senta na sala para tomar cerveja – gente fina, que nos ajudou muito assim que chegamos aqui.
Vamos subindo os degraus de madeira gasta. Logo atrás vêm tio Causto e Pátria, que se atrasara trocando a roupa. Causto tem a expressão mais viva e a cor voltou às faces (o sabor do desconhecido rejuvenesce).
Eu sou o menos animado do grupo. Ando cansado das loucuras desta cidade e hoje, especialmente, a noite promete. Chegamos ao terceiro andar e o apartamento de cima do nosso tem a porta ligeiramente arqueada pela umidade, o que nos dá uma pequena visão do que ocorre lá dentro. Um homem pássaro repousa, recostado no centro do que seria seu ninho – uma pequena montanha de quase dois metros de altura construída com jornais, revistas e livros amarelados, listas telefônicas.
A surpresa nos dá coragem para que forcemos um pouco a porta e entremos. O homem pássaro já é um velho, com a pele esverdeada como se fosse musgo. No lugar da boca, um bico semi arqueado com duas perfurações no lugar das narinas, o óculos de lentes grossas, caído no peito, denuncia que seus olhos já estão fracos. Dorme com um livro caído no peito de pombo: “The Holy books of Thelema”, de Aleister Crowley, um ocultista célebre, segundo explicou Pocho mais tarde. A pia do meio do quarto transbordara e o que caía pelo assoalho descendo pelos canos do sprinkler, era tinta de impressão pura e simples, diluída na água.
O velho pássaro não se mexia. Entramos pela porta destrancada. O cheiro era de urina, misturado a noticias que exalavam dos jornais há muito esquecidos. Meu tio, incorporando personagens de Genet, pegou o “Thelema” nas mãos e recitava o Líber Al Legis com a voz grave. A boca do homem pássaro estava tão aberta que poderia nos ter engolido a todos, se quisesse. Mas permanecia em silêncio.
Tio Causto foi se inflamando e, como erguia a voz, os olhinhos do velho pássaro se abriram por alguns instantes. Mas devem ter julgado que tudo ia bem, pois deram algumas piscadelas e voltaram a fechar. Foi neste momento que as penas do velho começaram a brilhar, uma luz azulada no mesmo tom dos lábios de Causto e que aos poucos tomava todo o cômodo e se elevava do assoalho.
Pátria iniciou o que a mim pareceu um fino ganido. O pássaro estremeceu no ninho e um cheiro forte começou a exalar do livro que Causto insistia em ler em voz alta. Aquela repetição sincopada de sons me nauseou e tive vertigens. Pátria caíra desmaiada e a janela aberta deixava entrar o vento glacial e os sons da cidade que corria lá embaixo, mais viva do que nunca.
Então o tio se apoiou nas costas do velho pássaro e partiram, não sei para onde. Eu e Pátria, já refeita mas sonolenta, voltamos de mãos dadas para o nosso quarto.
Até hoje, quando bate a nostalgia, eu me pergunto se verei novamente o meu tio Causto.
8.
A CHANCE DE GENIVALDO
Era uma noite de Natal quando Genivaldo chegou até nós, há trinta anos.
Desde então, sempre que o sino da igreja toca doze vezes, anunciando a missa do galo, ele volta a se manifestar. No início, mesmo mergulhado nesta inconsciência da qual jamais saiu, ele contava longas histórias que eu cuidadosamente anotava, sentado na poltrona em frente ao seu leito.
Mas nos últimos quinze anos elas foram se tornando escassas e incongruentes, até se resumirem agora nestes jogos quase infantis de palavras. Ou em gritos primais cujo sentido me escapa.
De qualquer forma, aguardo ansioso por elas, as suas palavras, a cada ano, na esperança de me livrar de uma vez por todas de Genivaldo.
Daqui a pouco soarão as doze badaladas do sino. Vejo, através da janela, que os fieis começam chegar à praça da matriz. As casas vizinhas tocam músicas de Natal e na sala de visitas do sanatório os enfermeiros armaram um pinheiro iluminado. Mas os raros pacientes internados aqui, como Genivaldo, estão totalmente alienados de qualquer clima de festa.
Quando Genivaldo chegou até nós, dizíamos a ele que seriamos justos. Que nada estava em julgamento além da crença que depositávamos nele. Mas que isso, em hipótese alguma, nos transformava em semideuses, como ele acreditava.
Genivaldo olhava para nós, os médicos e enfermeiros vultos brancos ao redor da cama, e nos chamava de anjos. Perguntava por Deus e o que podíamos fazer? Sorriamos também e dizíamos que ele ainda O veria, mas não agora.
E pelo esgar da face, que foi se tornando mansa e até sorriu, decidimos desabotoar as fivelas da camisa de força. Mas Genivaldo calou-se. Voltou a falar apenas no ano seguinte, quando novamente soaram as doze badaladas do sino. Mas então ninguém mais se preocupava com ele, a não ser eu, transcrevendo cuidadosamente cada uma de suas palavras, sentando na poltrona ao lado do leito.
Um peido. A velha arrasta as pelancas pelo corredor da casa. Um peido. Ou melhor, nem tão velha, nem tão peido. Mas é que já antevejo a curva plástica e inamovível de suas pelancas. Pressuponho e antevejo. Penso no velho cu da vaca que me pariu. Um peido. Contenho-me. Nem tão vaca. Corrijo-me. A velha atravessa as pelancas pelo vão da porta e, inamovível. Plástico. Inevitável, penso no velho cu da vaca que me pariu. Foi nesta tarde. E a tarde anterior foi como esta tarde. E a anterior ainda como a primeira. É da tarde anterior que eu falo.
Senti, já nas primeiras horas, que havíamos nos precipitado ao amarrá-lo daquela maneira. Mas, justifico, é que Genivaldo se debatia muito, tomado por inexplicáveis espasmos musculares. E os enfermeiros da madrugada, especialmente adestrados para conter pacientes furiosos, ficaram com medo da violência daqueles surtos.
Mas, assim que nós médicos chegamos pela manhã e Genivaldo nos chamou de anjos, falando vagamente de um ritual de morte, decidimos desafivelá-lo.
Ele descrevia alguma coisa que já havia sido tratada amplamente pela psicologia, a antropologia, ou o caralho que fosse. Um rito de passagem iniciado num túnel de luz e que prosseguira no limbo e culminara em nós.
E nós, pressupunha ele, éramos a ante-sala de Deus.
Havia coerência, afinal, em seu delírio.
O santo cu. A velha atravessou a soleira da porta. Ou melhor, as pelancas da velha atravessaram a soleira da porta. Depositou a bandeja com as torradas e o leite ao lado da minha cadeira. Graças a Deus! Agora, beber torradas com meus cacos dos dentes. Isso foi na tarde anterior. As pelancas. O liquido morno na garganta, o calor desce e acalma a maldita rigidez das tripas. Ela me olha. As pelancas. Não sei por que insisto nelas. Apesar da doença, ainda ontem, apesar dos cacos. Os dentes dela são perfeitos e na tarde anterior eu era muito jovem. É certo: os dedos de lado, sob o aquecedor, o abajur apagado, sem movimentos por baixo da coberta. Um gozo rápido. Mas os dedos de leve e depois, um dois, um movimento lembra coisas irrecordáveis. Um passado, um tempo. O frescor das laranjeiras. Um, dois, um gozo e a velha, de certa forma, acomoda suas pelancas. De novo as pelancas. Inamovíveis. Mas não. Agora estou doente e não posso. Não quero e não posso. Enfim dá no mesmo. Nem tantas pelancas e nem tão velha. Na tarde anterior, prostrado aqui, da minha poltrona eu vi. Por trás do muro, os olhos do vizinho e os olhos dela. Através da janela da sala, quase deitado na cadeira, eu vejo tudo. Vi seus olhos. O maldito vizinho ali. Mas, na tarde anterior eu penso que amanhã, hoje, será, é, outro dia. Mas não. É o mesmo. Agora ela se afasta. As pelancas atravessam de costas o batente da porta. O vizinho. Sinto náuseas e molho as torradas no leite. Um movimento demorado. A ponta de meus dedos o alcança e delimita o desejo. Estas migalhas descem a garganta.Neste momento já havíamos conseguido, de certa forma, estabelecer o fio do delírio de Genivaldo. Acreditávamos que não seria impossível resgatá-lo à lucidez. Casos semelhantes ao dele forram manuais e compêndios. A luz de que nos fala Genivaldo foi vista por centenas de moradores de Iporã. Ela se projetava como um potente farol em direção ao céu estrelado. E então, inexplicavelmente pelo nosso conhecimento científico, descreveu uma curva no céu e voltou em direção ao solo, desenhando no espaço uma gigantesca ferradura de luz.
Era obviamente este tubo luminoso que Genivaldo descrevia como sua primeira viajem aos ritos de passagem da morte. Depois, o limbo insensível dos enfermeiros e finalmente nós os médicos, que, diante de tudo, prometíamos ao menos ser justos. Naquele instante ele nos olhou e sorriu.
Quase todos nós éramos muito jovens naquele tempo. Egressos de faculdades de medicina dos mais diversos pontos do país havíamos sido atraídos pela legenda que circulava nos corredores universitários em torno do nome deste distante sanatório de Iporã. Reta final de casos insolúveis, adormeciam aqui psicoses e distúrbios mentais misteriosos e inexplicáveis.
E os recém-formados mais audaciosos, como eu, acreditávamos que a solução de um grande caso nos abriria o caminho da glória já no inicio da carreira. Talvez tenha sido mais esta fé em nossa inabalável genialidade de jovens e menos os sorrisos de Genivaldo que me levaram, naquela primeira manhã em que o vi, a acreditar que seria ele o meu grande caso.
Há uma pequena tabuleta sobre a mesa de seu quarto: “Tudo passa”. Escrita em fogo sobre a gravura colorida de uma estrada que leva a lugar nenhum. Fio-me nela. Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe. Já ando. Observo a lenta convalescença do corpo. Já ando e mastigo. Já ando e faço planos. Amanhã caminharei pela primeira vez sob o sol. Não posso ter pressa. Uma caminhada curta. A pele readquire a cor daquela tarde. Não ontem. Muito, muito antes de ontem. A cor que tinha naquela tarde em que a conheci. Antes, antes ainda, quando era jovem e os dias e as noites eram como festas que nunca se acabam. Mas agora não posso ter pressa. Ela me assusta. As pelancas se assustam. Começo vagarosamente a viver de novo e as pelancas se assustam. O vizinho se assusta. Estou vivo. A semana que vem, já corado, voltarei ao dentista e de novo reconstituirei os cacos. Lá vem ela, a xícara de leite, os nacos de pão. A doença destruiu-me os ossos. Ou já estavam destruídos e apenas ontem, na tarde anterior, é que me dei conta. A xícara de leite. As pelancas atravessam a soleira da porta, mas já não me submeto a estas papas de pão. Agora que me recupero elas só provocam náuseas. O santo cu.Estavam realmente relatados no caso de Genivaldo os componentes claros de uma alucinação coletiva.
Quase toda a cidade havia observado a luz e a descrevera com semelhança de imagens quase precisa. Os sinos da igreja acabavam de anunciar o nascimento de Jesus e os fieis se abraçavam na festa da missa do galo. Havia, então, pujança em Iporã, apesar de seu pequeno tamanho. E porque era Natal, as pessoas trajavam suas melhores roupas. Muitos colonos, pequenos sitiantes e peões de fazendas vizinhas estavam aportados na praça com charretes e cavalos. De modo que haviam armado barracões, barris de cerveja, e já assavam os frangos para iniciar a grande quermesse, quando uma bola azul e resplandecente descreveu evoluções no céu. Os primeiros que a avistaram foram aqueles que estavam fora da igreja.
Mas, em seguida, como as luzes da cidade se apagaram e os fieis ficaram impacientes, acompanhando a ladainha totalmente fora do ritmo, o padre apressou o culto. E a multidão ganhou rapidamente a praça, em tempo de ver que a bola pousava sobre a torre central da igreja. E piscava suavemente sua aura azulada que, segundo o testemunho de pescadores que se encontravam à margem do rio, podia ser avistada num raio de muitos quilômetros. Depois de alguns minutos assim, fazendo resplandecer a estátua da Virgem Maria, a bola de luz se projetou verticalmente, em alta velocidade, rumo ao céu.
Para muitos, esta cena se transformaria logo em alguma imagem profética. Se não fosse pela figura de Genivaldo, certamente a Igreja de Iporã teria se transformado, desde então, em ponto de romaria. Porque, nos minutos seguintes, quando algumas fieis já desmaiavam, imaginando ter visto a aparição da Virgem, o objeto surgiu de novo. Descreveu dois círculos sobre a cúpula da igreja e disparou, em linha reta, rumo aos montes da parte norte da cidade.
E, ali sim, o fenômeno realmente intrigou a todos.
Esta tarde caminhei quase três quilômetros. Passei ofegante o resto do dia, mas de qualquer forma volto a sentir a vida dos músculos. Aos poucos voltarei a ser o mesmo que era, apesar das pelancas, e sinto que ela tem medo. Ela sabe, todos sabem que eu não perderia uma nova chance. Pedi aos deuses uma nova chance. Estou ofegante. Mas sinto que as forças me voltam. Logo poderei dedilhar o violão novamente. Ela teme, sinto e sei que teme a minha nova chance. Desde que a conheci, creio, teme que me dêem chances. Mas naquele tempo era eu quem não queria. Não pensava, não me importava com isso. Era jovem e as chances estavam todas naturalmente dadas. Mas agora não. Já sou velho e estou ofegante.
A bola de luz deslocou-se lentamente e parou a três ou quatro quilômetros da Praça da Matriz. Permaneceu naquele ponto do céu, cintilando, enquanto o delírio tomava conta das pessoas. Montados como podiam, em cavalos, bicicletas, charretes e carros, saíram ao encalço da aparição luminosa.
Quando os mais apressados já quase chegavam ao local, uma clareira cercada de árvores onde o objeto pairava, ele desceu velozmente e pousou sobre a grama. Alguns pararam assustados, para observar à distância. Então a bola lançou o jato de luz que se projetou como um tubo resplandecente em direção ao céu.
Caminho de novo sob o sol. Caminhava sob o sol no tempo em que a conheci. Mas naquele tempo não. Não me preocupava a flacidez dos músculos, como me preocupa agora, quando paro, encostado no muro, com o peito chiando. Houve algo que me prendeu a seus olhos, assim que a vi pela primeira vez. A magia da bruxa, como meus amigos diziam. Eu ria. Eu é quem acreditava tê-la aprisionado na vitalidade de minha carne. A velha bruxa. Nem tão velha, é certo. Poucos anos separavam ela de mim e da maioria dos rapazes da minha turma. Mas nenhum de nós havia, como ela, armado tanto barraco e conflito nas ruas, nos bares e no interior da moralidade das casas de nossa pequena Iporã. Iporã não apresentava ainda esta fisionomia de ruas mortas, de casas e praças vazias e abandonadas. A cidade movia-se e só depois descobrimos que para lugar nenhum. Aliás, quem descobriu fui eu. Os outros, os velhos, os que ficaram; os analfabetos, os peões, os donos de botecos. As professorazinhas da escola, o farmacêutico, os enfermeiros xucros do sanatório, creio que todos estes, até agora, nem se deram conta de que a cidade está morta.Lá em cima o tubo de luz arqueou-se, numa volta de 180 graus, e projetou-se em direção ao solo. De modo que, há trezentos metros de onde se encontrava o objeto e na direção oposta da pequena multidão que presenciava tudo, formou-se uma roda luminosa no solo da pequena estrada. Alguns, mais tarde, dizem ter visto o corpo de um homem subindo pelo tubo de luz, penetrando o objeto e logo retornando pelo mesmo caminho. Muitos negam esta ocorrência. De qualquer forma, todos viram, nos instantes seguintes, como o tubo de luz se endireitou e voltou a iluminar o céu. Depois recuou aos poucos e desapareceu no interior do objeto, que começou a pulsar luzes de todas as cores. Rapidamente levantou vôo, em alta velocidade, até se confundir com uma das infinitas estrelas que iluminavam o céu de Iporã.
Então a multidão se dirigiu ao local onde o objeto pousara. Alguns homens caminharam adiante, em direção ao ponto onde o tubo de luz iluminara o solo da estrada. E, bem ali, naquele ponto exato, encontraram Genivaldo caído, desmaiado e ruminando palavras ininteligíveis.
A bruxa, louca, a perdida. Desde que pela primeira vez caí em seus braços, ou ela nos meus, ela pedia que eu a chamasse de “minha velha”. Mas não havia nada de velho em sua pele cuidadosamente dourada no sol das piscinas chiques que ainda existiam em Iporã. E nas praias distantes dali. Ela era única, entre todos nós, que sumia para as capitais e estâncias de férias quando chegava o verão. E no dia em que voltava, a bruxa, a louca, perdida, de alguma forma nos cativava. O corpo nu sob a saia, as pernas erguidas atrás do altar da igreja. Ensinava a um, depois a outro, segredos que as mulheres daqui jamais saberiam. Quando chegou a minha vez, ela disse que se apaixonou pelo som da minha voz. Ah, minha voz! Aos poucos perdi, tornou-se rouca. Mas era um mel a minha garganta então. Por minha voz, ela dizia, largaria todos os outros. Largou os outros, não sei se por minha voz. Largou os outros que, pouco a pouco, partiram de Iporã e me chamavam de louco, enfeitiçado. Quando dei por mim, todos já haviam partido ou quase todos. Mas pouco importava. O dinheiro da bruxa parecia inesgotável ou quase, para nós que éramos pobres. Por ele, eu conheci as capitais e também alguns dos mais belos lugares do mundo. E meus amigos, os outros, me queriam. E meus inimigos me odiavam. Eu, irônico nos braços da bruxa, deslizava satisfeito de ter meu ritmo. Guiava um velho Ford.
Meses depois o repórter de uma revista da capital nos procurou. As noticias de Iporã custam chegar até lá.
O repórter ouvira falar do objeto que os fieis daqui insistiam em chamar de aparição da Virgem. Entrevistando o delegado, ele soube de Genivaldo e por isso chegou ao sanatório.
Eu me surpreendi por ter sido o primeiro médico procurado por ele. Havia dezenas de jovens residentes, também ambiciosos, dispostos a dissertar de forma acadêmica sobre o delírio que acometera o nosso paciente.
E, mais do que nós, o chefe do departamento, o professor de bigodes brancos em seu imaculado jaleco. Jamais, até onde eu soube, ele recusou a palavra a quem quer que o procurasse.
Assim, aquela ocasional entrevista reforçou em mim a hipótese de uma coincidência feliz que me trouxera Genivaldo.
Falei pouco ao repórter sobre as particularidades do fenômeno luminoso. Afinal, no final daquela tarde, eu e meus colegas havíamos saído mais cedo do sanatório. E ficamos bebendo pinga de alambique e tomando caldo de feijão até as dez ou onze da noite.
Iporã tinha, para a gente, aquele ar exótico das pequenas cidades do interior e nenhum de nós acreditava que ficaria ali por mais de um ou dois anos. Ninguém queria nenhuma ligação profunda com a cidade e, ao clima de festa de paróquia que se seguiria à Missa do Galo, preferimos a cama. Até porque a cachaça subira forte com aquele mormaço de verão.
De qualquer forma, mostrei ao repórter o que me parecia óbvio na estrutura daqueles fatos. “Há quinze anos”, eu disse, “o mundo fechara uma das paginas mais negras de sua história, com o armistício que pôs fim à 2ª Grande Guerra. O nível de tensão a que, durante este período, comunidades inteiras foram levadas, permitiu que alguns heróis da psicanálise observassem fenômenos coletivos e individuais que nos abriram uma compreensão nova da mente humana”.
Eu discursava assim ao repórter, usando propositalmente um tom científico, mas que sabia assimilável pelas revistas sensacionalistas.
“Pois bem”, prossegui, “nestas circunstâncias, cidades inteiras chegaram a ver, espelhadas nas nuvens, a face de Jesus, da Virgem Maria, ou de outros arquétipos que emergiam naqueles momentos de dor intensa. Hoje, todos sabemos o significado desta busca por bálsamos em momentos de crise aguda.”
Depois, segui dissertando, a certo ponto temeroso de que o repórter já não entendesse nada do que eu falava: “O momento ontogenético, na psicanálise, também refaz a filogenia. Há individualizações, mas nunca individualidades. A não aceitação deste fato é que torna tão difícil, para nós, aceitar alguma verdade nas ‘alucinações coletivas’. Elas são o que são, apenas alucinações. O que ocorreu em Iporã, portanto, deve ser compreendido primeiro à luz da sociologia. A psicanálise entra depois”.
Naquela altura dos acontecimentos, já absolutamente certo de que a elucidação do caso de Genivaldo poderia representar uma das grandes contribuições da psicanálise brasileira ao conhecimento acadêmico, eu havia me ocupado em estudar as particularidades do universo social, político e econômico em que os fatos ocorreram. E tinha algumas linhas mestras de raciocínio, ainda inconclusas, porém claras para oferecer ao repórter. “Iporã deveria ter sido escolhida, há coisa de dez anos, como a capital política desta região do Estado. Mas acordos de bastidores e interesses econômicos de alcance nacional e internacional, fizeram com que os grandes investimentos fossem jogados na vizinha cidade de Porto Matos”.
Eu me empolgava, falando de sociologia e política para aquele repórter com cara de parvo. “Ocorre que tudo isso que você vê hoje por estas redondezas – propriedades, mansões construídas no interior de fazendas, ruas centrais asfaltadas e o imponente edifício da Prefeitura – foram erguidos sobre a ilusão de um sonho que não ocorreu. Mesmo assim, à duras penas, a cidade manteve sua pujança ao longo da última década. Embora isoladas e já sem recursos, as famílias que vieram para cá acreditando em um novo mundo se esforçaram para manter a vitalidade de Iporã. Mas, no final do ano passado, poucos meses antes de ocorrerem os fatos da noite de Natal, as últimas esperanças desta gente foram por água a baixo. A estrada que deveria cortar esta região erma, e que ligaria Iporã a Porto Matos, teve seu percurso inexplicavelmente alterado. Ela passará há mais de 180 quilômetros daqui, privilegiando outras pequenas cidades e praticamente relegando Iporã a um fim de mundo fechado em si mesmo”.
Eu disse então ao repórter que todos os símbolos da chamada “aparição da Virgem” eram absolutamente claros e codificáveis: a sensação de abandono, a resposta da mãe, a mãe de Jesus e mãe de todos nós; a bola de luz que some numa constelação como a estrela que orientou os reis magos; e finalmente, o túnel de luz, o renascimento.
Agora eu penso que deveria ter uma nova chance. Mas não sei se vale. Convalesço. Me recupero. A bruxa atravessa as pelancas pela soleira da porta. Café com leite e nacos de pão. Amanhã começo a refazer os ossos da boca, meus cacos. Eu sei, eu sei. Vocês, vestidos de branco, são meus anjos. Me acorrentem, pois. Me libertem, pois. E exijam que eu lhes diga estas coisas, que não ousei dizer sequer a mim mesmo. Creio que a bruxa jamais suspeitava de que eu fosse um dia capaz de me reerguer. E me reergui.Mas o resultado de tudo que eu disse foi lacônico.
Li a revista dois meses depois. Um colega da capital viu meu nome estampado, discretamente, no final da reportagem e me mandou um exemplar. “A região de Porto Matos, conhecida nacionalmente depois da descoberta de suas jazidas de cassiterita e de outros minerais raros, tem se tornado manchete mundial por causa dos avistamentos de óvnis que frequentemente a sobrevoam. Entre os mais fantásticos casos ufológicos, um ocorreu no pequeno município de Iporã, uma região árida e isolada, de difícil acesso por terra, situada 250 quilômetros a noroeste de Porto Matos. O comerciante Genivaldo Basso, de 42 anos, administrador de vários estabelecimentos comerciais de propriedade de sua amásia, Maria Célia Joenburgo, saiu de casa por volta das 22:30 horas. Convalescia de uma doença que o deixou na cama por mais de dois anos e aproveitou a noite quente e movimentada de Natal para caminhar pela cidade. Alguns moradores relatam que o viram, por volta das 23 horas, caminhando lentamente na calçada ao redor da Praça da Matriz.
Depois, teria saído em direção a uma pequena chácara de sua propriedade, distante dois quilômetros do centro de Iporã. Ele caminhava por essa estreita estrada de terra quando, pouco antes da meia noite, o estranho objeto luminoso que havia pairado sobre a torre da igreja pousou a uns 200 metros do local onde ele seria encontrado minutos depois, desmaiado. Dizem as dezenas de testemunhas que um jato de luz partiu do objeto projetou-se no céu e depois se curvou, caindo sobre ele e o deixando totalmente estático”.
A reportagem, neste tom, citava muito rapidamente o ocorrido na Praça da Matriz. “Centenas de pessoas também afirmam ter visto o objeto, que teria sobrevoado em vôos rasantes a catedral da cidade, enquanto ali se realizava a tradicional missa da noite de Natal”. E, mais adiante, perdia-se em fantasias: “Enquanto Genivaldo se encontrava caído no chão, abriu-se uma portinhola no aparelho, da qual saíram dois homens. Um deles permaneceu na porta interna do objeto e o outro, mais à frente, portando algo parecido com uma lanterna grande e escura, disparou uma luz no rosto de Genivaldo, fazendo-o perder os sentidos”.
Até hoje, não sei da onde o repórter tirou esta versão dos fatos.
A bruxa jamais suspeitava, mas me reergui. Pude vê-la cedendo aos encantos de outro homem. Deveria estar dormindo. Mas era uma noite quente e depois de tantos meses os meus músculos estavam novamente vivos. Caminhei em direção à chácara quando aquele objeto veio pousando. Eu desconfiei que eram eles. Tive certeza disso e só pedi uma coisa: uma nova chance. Era o rosto dos deuses, embora eu temesse ver a cara da morte.
Fui claro para o repórter. Disse-lhe que Genivaldo, não só por suas características culturais, mas por inúmeras outras razões, era o único capaz de personificar o centro de toda aquela alucinação coletiva.
Mas apenas no fim da reportagem ele citava meu nome. “Segundo o doutor Paulo Ricardo, Genivaldo apresenta sintomas claros de regressão mental, tendo que ser ajudado na cama para fazer suas necessidades fisiológicas e pronunciando, com muita dificuldade, apenas palavras como ‘dá’, ‘mãe’ e ‘medo’”.
Então uma lágrima rolou pelo canto de minha face e caiu na boca. O gosto do sal me fez ver a Terra das alturas. E descobri que os deuses estavam vivos. Pedi a eles apenas isso: uma nova chance.Quando soaram as doze badaladas, no Natal do ano passado, Genivaldo deu um grito. Sentado na cabeceira de seu leito, como estou agora, em mais um Natal perdido em Iporã, acreditei que ele finalmente encontrara sua catarse. Naquele momento pensei que a volta dele à lucidez poderia ter sido o coroamento de todo o meu esforço, a redenção de minha carreira. Mas há muito, não sei por que e não sei quando, abandonei qualquer ambição desta natureza. O sanatório também já perdeu tudo o que existia. Os outros loucos, aqueles que realmente não têm cura, vivem agora abandonados pelos corredores. Mas pouco os conheço, uma vez que me fixo cada vez mais em Genivaldo. Passo por eles sem vê-los. Eles não têm mais razão de viver ou sentir medo.
Genivaldo é o único traste que eu ainda carrego nas costas.
Ele pede papas de pão como se fosse um bebê. Abra esta boca, Genivaldo, abra esta boca que o sino bateu a décima segunda badalada.
Abra esta boca, maldito. (Acalme-se doutor, afinal foi ele e não você quem viu a luz, naquela madrugada há 30 anos). Acalme-se doutor. Um peido. O santo cu.
Os olhos de Genivaldo reviraram-se, ouvi um grito de terror, depois um sorriso. “Os deuses são implacáveis. Mas eles tiveram piedade de mim e me deram uma nova chance”, disse.
E depois se calou para sempre.