Expulso a tapas do quarto, Zeca lamenta apenas a vergonha que viu estampada nos olhos de sua amada diante do ridículo da cena. Humilhado, a única frase que conseguiu articular, já na calçada, sequer foi ouvida:
- Eu pago os estragos.
Mas a manhã seguinte, como todas as manhãs, resgatou novamente a lucidez de Zeca. E a única a dor que ele carrega agora é a de ter, talvez e talvez para sempre, perdido qualquer possibilidade de ser amado por Berta.
Seu heroísmo descambara em ridículo, mas Zeca sabe, ou pensa que sabe, que os heróis nunca irão além desta sombra proverbial da espécie. “Eles sim, são o verdadeiro ridículo que nos contempla em cada esquina”, resmunga.
Por isso, Zeca está certo de que jamais será como os heróis. Mas esta dor também logo se esquece.
E foi fácil para Zeca esquecê-la. No dia seguinte, ainda humilhado, chegou pensativo e triste ao seu local de trabalho. Ali, o silêncio e a assepsia quase completos da sala de computadores ainda despertavam o mesmo fascínio que ele sentiu há mais de quinze anos quando chegou em São Paulo.
A sala acarpetada de verde e as luzes fluorescentes no teto o levavam para outro universo, além da rotina dos carros, da rotina de Berta ou desta merda que é a rotina dos heróis. Apenas o silêncio dos teclados, o bip eventual dos computadores e o ronco suave das CPUs. O coração interiorano de Zeca sente que está no centro do mundo. E a memória traz uma velha imagem vista no dia em que o primeiro aparelho de televisão chegou à sua cidade: um anúncio de fósforos mostrava as torcidas no Maracanã lotado durante um jogo noturno. Milhares de fósforos se acendiam no exato momento em que outros milhares se apagavam, criando um movimento ininterrupto de luzes. Enxames de vaga-lumes que piscam, neurônios pulsando no cérebro monumental do Maracanã em festa.
E assim, neste silêncio de tele transportes, luzes e bits, a arguta inteligência de Zeca distancia-se do banal e redimensiona a vida. Ele olha o movimento dos corpos de seus colegas debruçados nos teclados dos computadores. Observa cada detalhe de cada gesto. Alguns são mecânicos, rotineiros. Outros integram uma coisa maior, iniludível (:o cotidiano do qual sequer o Sol, a Lua ou a complicada Terra escapam em cada ciclo universal de 24 horas).
Enquanto trabalha no computador, Zeca tece os pensamentos. “No tempo das máquinas de escrever, os teclados por mais pesados que fossem não provocavam estas epidemias de tendinite que atacam hoje quem digita em computadores”. Zeca sabe a causa: as velhas máquinas foram concebidas pela tecnologia mecânica, cheia de concessões às limitações humanas. “Os computadores, não!”, pensa ele. “Jamais concederam!” Os seus teclados opõem uma resistência definitiva e inviolável à qualquer tentativa de força bruta. Metálica e cruel, esta resistência nos obriga a conter qualquer resquício de violência ou ódio que exista no movimento dos dedos.
E ele estava tão certo e ao mesmo tempo revoltava-se tanto com a obviedade deste fato que vivia acometido por crises de tendinite. Zeca costuma dizer que suas tendinites são o preço inevitável da evolução humana. Mas não nutre pelo presente o menor resquício de ódio. Ele sabe que estes tempos modernos o libertaram de seu passado.
Zeca lembra como se fosse ontem. Quatro anos depois do Dia de Sua Morte, seus pais o mandaram para a cidade grande. Ainda assustados com a doença, imaginaram que em São Paulo ele estaria perto de hospitais e encontraria uma profissão menos pesada do que aquelas que o sertão oferece. Foi assim que Zeca encontrou estas máquinas modernas e sutis e aprendeu rápido a lidar e conviver com elas.
“Ah!, estes Tempos Modernos”, pensava Zeca, ao observar a repetição interminável dos gestos de seus colegas. As longas horas de observação na sala dos computadores permitiram que ele desenvolvesse a capacidade de descobrir o que cada um pensa e faz, no momento em que executa os movimentos sobre o teclado. Um tique de braço, um gesto esc-save sempre o mesmo, esc-save-enter, eternamente esc: fim.
Zeca é capaz de interpretar com precisão o que faz cada um de seus colegas, observando apenas o sutil movimento dos corpos, dos ombros, das mãos. Então ele se distrai do computador e sente que é quase um deus. Mas, logo, livre da onisciência, reflete que este nível de percepção é fruto de sua paciência. Uma paciência infinita que desenvolveu, desenvolvia, desenvolvera, desenvolve, desenvolveria, desenvolverá e estará desenvolvendo sempre em cada momento de sua vida, alheio às revoluções dos espíritos inquietos.
Depois de perder-se por longo tempo nestas reflexões, Zeca começava a desconfiar que a paciência é apenas uma vibração tonal da inteligência. Ou seja, sendo paciente acredita construir com segurança uma concepção inteligente do mundo. Reconhecia-se, portanto, inteligente depois de tantos anos de exercício da paciência.
Mas nunca teve certeza da relação exata de causa e efeito que existe entre estas duas funções no cérebro. Não menos de uma ocasião, chegara a cogitar: se a inteligência é uma função claramente cerebral, nem sempre o é a paciência. A paciência, atributo de todos os órgãos do corpo, depende funcionalmente da força e da condição vital de cada um deles. Mas, agora, tendo em si casados momentaneamente paciência e inteligência, Zeca é perfeitamente capaz de distinguir os comandos, palavras, dígitos e funções que cada um de seus colegas executa no teclado, observando apenas os seus movimentos.
E ele pensa nisso e deixa o tempo correr. Esc-save. Esc-copy-save. Esc-save. E ele leva tão a sério o seu trabalho que, não raro, usa dele para cogitar ritmos no momento do orgasmo. Esc-save. Esc-copy-save. Aquela fração de segundo em que o sêmen já saiu das profundezas mas ainda não jorrou, embora o cérebro já o perceba Esc-copy. Copy-copy-fuc-fuc-esc-save.
Quantas vezes, para se trair ou distrair, Zeca andou pelas ruas a distribuir mentalmente os ritmos de seus orgasmos. Esc-save para as bundas generosas, copy-copy nos peitinhos de ninfetas, esc-copy-copy-copy.
Zeca divaga nestas tardes intermináveis, e assim acaba o dia. Mas enquanto os dedos trabalham, uma outra parte, intransferível, do cérebro - não a da paciência ou a da inteligência; tampouco a da paciência e da inteligência unidas - abstrai, relaciona, estabelece analogias.
É nesta hora que, de repente, o pânico retorna. Os números da planilha se desfazem no monitor, e:
Desenho 2: Os números desfeitos no monitor do computador formam o desenho de uma sombra, ainda confusa, que ocupa toda a tela
- Chefe, chefe, pelo amor de Deus, são eles de novo!
- Eles quem, meu filho?!
A sina deste “meu filho” sempre perseguira Zeca. Ele atribuía o costume de chamarem-no assim à uma suposta fragilidade que lhe atribuíam, mas que não sendo aparente (tinha o corpo equilibrado, músculos desenvolvidos, raras gripes e tosse nenhuma) nem ele sabia de onde é que vinha. "Tentam fragilizar-me", pensava, mas não dizia.
- Ora, quem?, vírus húngaros de computador, meu chefe!
Desenho 2 A: No seu monitor, desfeita a planilha, os números desenharam uma sombra perfeita: Um homem tenta degolar uma criança sobre a mesa, enquanto várias pessoas assistem e algumas dão gargalhadas, num aparente festim canibalesco.
-- -- Caro leitor, aqui é tudo igual na primeira sombra. De novo, deixo uma sugestão de desenho, pra ajudar a excitar sua imaginação, ta! Ah, todos os desenhos que uso aqui são do mago do cartoon, Carlos Estevão, que a partir da década do final da década de 40 do século passado publicava os cartoons mais engraçados do mundo nas principais revistas brasileiras, entre elas a antológica O Cruzeiro. Ele morreu em 1972. Saiba mais sobre ele: http://www.memoriaviva.com.br/carlosestevao.
domingo, 6 de setembro de 2009
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