domingo, 6 de setembro de 2009

Zeca não é tolo. Sabe que não deve, em hipótese alguma, chamar novamente o chefe. Bate as mãos nos bolsos e os comprimidos estão ali, sólidos, palpáveis. "Permanecerei só", pensa, "com minha solidão e minhas sombras". Embora pareça estranho que este pensamento grandiloqüente tenha vindo de Zeca, ele que despreza o épico, veremos que bem mais vezes do que parece, é o épico que alimenta Zeca. “Com minha solidão e minhas sombras”, repete.
Acostumado às sombras, Zeca sabe que dentro de alguns segundos elas desaparecerão da tela do computador para recolherem-se apenas na solidão de sua lembrança (de novo o épico), dentro de seu privilegiado cérebro.
Mas, naquele momento, as sombras o contrariaram. Por quase um quarto de hora insistiram, incólumes e presentes, em testar os nervos de Zeca. "Falos-ei aço (...)", decide.
Mas nem a decisão afasta as sombras.
Zeca impacienta-se. Mais do que isso, irrita-se com o silêncio alienado de seus colegas. Ao vê-los assim, produtivos, profissionais, é outra a insinuação sutil que abala seus nervos: teme que as sombras não se desfaçam por toda a tarde, comprometam seu trabalho e, no final do expediente, arruínem de uma vez por todas a sua delicada situação na empresa.
Então é tomado por uma onda súbita de solidão e pavor, e grita:
- Chefe, por favor!!!
Como o grito chama a atenção de todos e a sala inteira olha espantada na direção de Zeca, o chefe o atende, esbaforido:
- Hombre, que te passa? Porque gritas, hombre?!
- Mira, chefe, mira. São elas de novo, chefe. As sombras!!! - desespera-se.
- Vírus húngaros del carajo... – mas o chefe não consegue terminar a frase.
As sombras se decompõem rapidamente e a realidade, enfim, volta a ser o que era.

Aquela noite foi particularmente dolorosa para Zeca. Ele, de certa forma (de todas, na verdade), já sabia que seria assim e, por isso, mal pisou a rua bateu a mão no bolso. Eles estavam ali, dentro do vidro, reconfortantes.
Fraco para bebidas fortes, Zeca nunca teve o costume de esticar a noite em bares. Mas a lembrança da sombra o induziu a entrar no primeiro botequim (amanhã Edélsio lhe explicaria as razões desta compulsão pela tragédia). Por muitas horas, Zeca bebeu cerveja, abusou da pinga e já estava completamente bêbado quando o bar fechou na hora em que os bares se fecham.
Sentado ali, com os garçons limpando o chão, amontoando cadeiras, uma imensa sensação de liberdade tomou conta do coração de Zeca. "Enfim, as sombras fugiram da realidade", pensou. E, relaxado por esta certeza, pediu mais uma cerveja e outra pinga.
O efeito das novas doses foi fulminante. Zeca passou a agir como estes bêbados felizes e inoportunos que perambulam pela madrugada. Incomodou fregueses das mesas vizinhas, mijou na pia do banheiro e, a certa altura, chegou a sentir-se satisfeito com este comportamento. Sem perceber que tudo não passava do resultado direto do excesso de álcool, imaginou que algum componente libertário havia se intrometido em sua personalidade quase tímida, colorindo-a com uma desenvoltura que ele sempre invejou nos homens mais abusados.
Por isso, decidiu insinuar-se abertamente com uma das garçonetes que se preparava para ir embora. E, inconformado com a recusa, abusou do verbo. Neste momento, o noivo da garçonete, um gigante na horizontal apesar da baixa estatura, irrompeu no bar. Zeca não teve tempo sequer de avaliar a dimensão da porrada. Viu apenas a cabeça de cabelos aparados em corte militar aproximando-se rapidamente de sua boca e, num segundo, ouviu o rangido do pivô de seu canino esquerdo arrancado e cuspido longe.
Mas não foi a pancada ou o nocaute que instalaram o pânico.
O terror se apossou de Zeca no momento em que caiu. Por uma fração de segundos, viu a imagem refletida no espelho:

Desenho 3 A: A imagem real da sombra que havia visto no computador é o próprio Zeca caindo, depois da porrada na boca.

-- Aqui, caro leitor, não tenho uma sugestão pra te deixar. Mas, pra que você saiba afinal o desfecho da sombra anterior na concepção do saudoso Carlos Estevão, vai aí a segunda imagem do cartoon.

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