segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Prefácio

Os brasileiros de olhos puxados, os japoneses, as empresas japonesas e o governo do Japão se envolveram a fundo, e de uma maneira que até hoje ainda ninguém entende completamente, na história da ocupação dos cerrados de Minas Gerais e Goiás, deflagrada na década de 1980.
Hoje, em todos os limites do agrobusines, nas fronteiras agrícolas do país, a ocupação dos cerrados – que ainda continua em curso no extremo norte de Minas, sul e oeste da Bahia – é uma ação transparente, até onde é possível a transparência neste universo.
Mas quando esta ocupação foi iniciada e em seguida revelada para o Brasil, em 1980, pairava sobre a ação dos japoneses no cerrado brasileiro uma obscuridade enorme. Afinal, aquele era um tempo obscuro.
O que acontece com o cotidiano da vida dos simples mortais quando uma superpotência mundial como o Japão movimenta peças decisivas no tabuleiro da geopolítica contemporânea? Era essa a pergunta que fazíamos naquele começo dos anos 80, batendo os estradões de terra e as veredas sem fim nos grotões das Minas Gerais.
Por aquele tempo nos cerrados de Minas ainda se ouviam os últimos ecos dos grandes sertões, os últimos suspiros de seus personagens, seus mitos – mas a realidade começava a ser outra: a disputa pela terra já não movimentava vaqueiros e jagunços, os velhos coronéis ou os políticos de quatro costados.
Atraídos até a região pelas denúncias de trabalho escravo em fazendas mineiras, o que nós dois, então jovens repórteres, encontramos foi uma extensa área de terra – os cerrados indevassados – convulsionada pelo pesado deslocamento de interesses japoneses naquilo que, àquela época, apenas se esboçava como o foco de disputas estratégicas: a produção de alimentos.
No Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Patrocínio, caboclos pacatos habituados à pecuária extensiva e à extração do carvão eram confrontados com novas e agressivas relações de trabalho, se transformando da noite para o dia em bóias frias expostos à toda sorte de exploração. “Os japoneses estão chegando”, nos diziam os líderes dos trabalhadores, puxando o fio de uma meada que começara alguns anos antes. Financiados pela toda poderosa Japan International Corporations Agency, a JICA, agricultores nipo-brasileiros associados de cooperativas agrícolas do Sul do Brasil iniciaram a ocupação daquela extensa faixa de terras de equilíbrio ecológico delicado: os até então esquecidos cerrados brasileiros.
Seguindo aquelas pegadas feitas de gente e história, nos deparamos com um Brasil do qual não se tinha notícia para além das fronteiras das pequenas cidades mineiras. Por trás das estranhas movimentações daquilo que um dia viria a ser chamado de agronegócio, havia poderosos interesses geopolíticos acenando com profundas promessas de mudança naquele mítico pedaço de civilização brasileira. Era isso que esquentava o nosso sangue de jornalistas independentes, apaixonados e comprometidos com a grande reportagem.
Enquanto isso, em Brasília, um deputado da oposição fazia um denúncia que beirava o escândalo: o interesse do Governo Militar de transplantar para terras brasileira um milhão de imigrantes japoneses.
Juntando os fragmentos de uma trama ainda nebulosa, publicamos em 1983 a história em nossa revista independente “Brasil Repórter Urgente”, sediada em Londrina.
Um ano depois, durante Congresso da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Campinas, conhecemos Herbert de Souza, o Betinho, sociólogo exilado que acabava de retornar ao Brasil nas asas da Anistia – e de uma canção popular que virou hino ao pedir a “volta do irmão do Henfil”.
Por essa época, o irmão do Henfil, mineiro da gema, acabava de organizar o Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sócio Econômicas), instituto que reunia cientistas sociais de vanguarda com o propósito de repensar o Brasil pós-Ditadura. E esta revisão começava com o desafio de desvendar a lógica militar por trás dos grandes projetos desenvolvidos no tempo dos generais.
Herbert de Souza já conhecia a nossa revista e se entusiasmou com a reportagem sobre os cerrados. Foi dele a idéia de transformar em livro aquela história que colocava o Projeto JICA ao lado de iniciativas como Itaipu, Angra e Transamazônica, entre outras.
Seu olhar visionário nos alertou para a importância da agricultura no mundo, quadro que se configuraria no início dos decisivos anos 90, com a hegemonia do neo-liberalismo.
Financiados pelo Ibase, estusiasmados com a parceria com Betinho, pudemos voltar ao cerrado mineiro, percorrer trechos de Goiás, pesquisar arquivos em Brasília. O resultado dessa incursão por um Brasil desconhecido se transformou no livro “Cerrados – Uma invasão Japonesa no Campo” que fez o livro - lançado pela editora Codecri, que à época editava o irreverente Pasquim. O livro, para nossa surpresa, foi um sucesso imediato, como fonte de pesquisa e referência: um instantâneo jornalístico de um momento crucial de nossa história.
Na verdade, para nós, o livro foi um relato com o olhar de repórteres. E o repórter tem esta condição maldita (bendita?) de se desligar da história quando põe o ponto final na matéria escrita. Então, rapidamente, esquecemos mesmo dela. E foi uma grata surpresa quando Celso Norimtsu Mizumoto nos procurou, em 2007, para fazermos este resumo do livro.
Celso encontrara um exemplar do livro, que nem nós temos mais, na biblioteca da UFG (Universidade Federal de Goiás). Acreditávamos que o livro já tinha se perdido na memória. Celso pesquisava a história dos japoneses no cerrado, para fazer esta bela edição comemorativa dos 100 anos da imigração japonesa no Brasil. E foi ele, com base nestas pesquisas, que nos disse que o nosso “Cerrados – Uma Invasão Japonesa no Campo” era o único relato abrangente daquela época e daquele ciclo de ocupação de Minas Gerais e Goiás.
Hoje, não sabemos como da situação daquelas plagas do cerrado, a não ser por notícias de jornais e TV, leituras esparsas, relatos. Mas o que contamos naqueles dias era a expressão viva do início de um grande processo de ocupação de um dos mais importantes ecossistemas do País.
É um resumo deste relato que apresentamos agora. Mantivemos o prefácio escrito pelo Betinho, por sua importância histórica e lucidez.


Prefácio do Betinho

Minas Gerais sempre teve orgulho de ser Minas e o mineiro, de ser diferente. Na competição por ser mais Brasil, parece que Minas conseguia pelo menos estar onde sempre esteve; até que chegou 1964, pelas mãos de Magalhães Pinto, autor da frase e co-autor do golpe que creio até se arrependeu.
Os sucessivos “governos” de Minas competiram por oferecer vantagens às transnacionais no afã de mostrar ao mundo que Minas sabia se entregar melhor quando queria. E queria. Entregou o minério, a indústria pesada, a leve e a automobilística. Faltava o campo, o último reduto da mineiridade da classe dominante das gerais, descrita por Guimarães, sofrida pelos que tiveram as favelas de Belo Horizonte como último reduto. E foi neste campo, onde tantos de nós nascemos, que nasceu também o sonho dos cerrados: transformar um território 3,5 vezes maior que o Japão em um complexo agroindustrial, onde os frutos da terra adubados a dólar e a custa do cruzeiro tomassem o caminho do mercado mundial pela via do mar... do Espírito Santo. Cerrados é isso: um projeto do capital japonês pago pelo Brasil para produzir cereais para o mercado mundial, através de modernos latifúndios administrados por um “plano” transnacional.
Neste projeto, a terra é nossa, o trabalho é nosso, os custos são nossos, os riscos são nossos e os frutos finais são deles. Quem são eles? Esta é uma das questões de que este livro trata – e revela.
Depois de conhecer o projeto JICA fica a pergunta: por que sempre temos que fazer os planos mais caros e mais discutíveis para beneficiar a uns poucos ao invés de, enfim, tomar este país em nossas mãos e pensá-lo em função das maioriais e, principalmente, dos que trabalham a terra, por exemplo?
O mundo inteiro sabe que, em todos os paises e em todos os tempos, as terras mais difíceis, como os cerrados, são deixadas para o fim, como último recurso. Por que em Minas os cerrados vêm primeiro? Eis a primeira pergunta a nós mineiros e inclusive ao capital que vem por aí, subindo as nossas serras. Sabemos que os cerrados só são produtivos se bem tratados, mas isso não é novidade nem vantagem.
Esta é uma outra questão que o livro abre: o que devemos fazer para deter a internacionalização dos cerrados e que alternativas deveriam ser propostas para que Minas voltasse a ser Minas e o Brazil, Brasil?
O trabalho destes dois jornalistas, que se fizeram andarilhos para conhecer um pouco do nosso mundo, tem este sentido e este mérito e, por tudo isso alimenta a esperança que nunca morre – muito menos em Minas.
Herbert Souza
IBASE




CERRADOS – Uma invasão japonesa no campo

As Controvérsias na Entrada do Japão no Prodecer
(Título dos capítulos publicados agora no livro “O Cerrado e o seu Brilho”)

Paulo San Martin
Bernardo Pelegrini

Quem viu um dia e guardou na lembrança as imagens da febre que domina as cidades envolvidas pelos novos ciclos de colonização; quem rodou as cidades que brotavam no Norte do Paraná nos idos da década de cinqüenta ou as novas fronteiras de penetração no Mato Grosso e Goiás; ou quem passa ainda hoje pela efervescência das ruas do Norte do Brasil, das cidades do Oeste da Bahia, batia os olhos nas cidades mineiras de Patrocínio, Coromandel, Paracatu ou Irai e não tinha dúvidas, no início daquela década de 1980: iniciava-se ali um vasto ciclo de colonização, que arrancou o pacato mineiro de sua tranqüilidade inabalável para jogá-lo diante de um burburinho de gentes, máquinas e automóveis que invadiam as ruas, numa mistura de barulhos e sotaques vindos dos mais diversos rincões do Brasil.
A paz das cidades secularmente enfiadas sobre si mesmas, com a lembrança ainda viva da colonização portuguesa, se estilhaçou definitivamente para dar espaço a uma realidade que o povo do lugar ainda estava longe de aceitar ou compreender.
Quando nós fomos para lá, tudo ainda era novidade. Então escrevemos: “Floresce alguma coisa neste imenso pedaço do cerrado de Minas Gerais. E sobre a origem de tudo também não existem mais dúvidas: a febre que agita os intestinos do Centro-Oeste começou em meados da década passada (1970) com um projeto oficial de desenvolvimento dos cerrados, chamado POLOCENTRO. E culminou com a ocupação, iniciada em 1980, de 62 mil hectares do cerrado por uma empresa formada por poderosos capitais japoneses e brasileiros”.

A CONTROVERSIA DA PRESENÇA JAPONESA


Por aqueles dias, enquanto corríamos os cerrados, as dúvidas se concentravam em um ponto: a dimensão real da presença japonesa em torno da ocupação daquele pedaço do território nacional. Para o povo dali, as coisas que estavam em curso dentro do plano de ocupação dos cerrados, e que já era conhecido como Projeto Jica, ainda era um grande fantasma de que muito se ouviu falar, mas ninguém ainda tinha visto.
A primeira denúncia sobre a existência do chamado Projeto Jica fora formulada pelo deputado Hélio Duque, do PMDB do Paraná, no dia 17 de abril de 1980. E, literalmente, convulsionou o plenário da Câmara Federal em Brasília.
O país vivia os estertores da ditadura militar e questões como estas, do nacionalismo, se revestiam dos mais complexos matizes. “Brasil Ame-o ou Deixei-o”, “O Brasil é Nosso” e toda a exacerbação ufanista dos militares escondia, segundo repetidas denúncias da oposição, a maior orgia entreguista que o país vivera desde o início da República.
Então a idéia de que havia um projeto de entrega dos cerrados brasileiros ao florescente capitalismo japonês conquistou manchetes de vários grandes jornais brasileiros e levou à perplexidade inúmeros setores da vida nacional. Segundo a denuncia de Hélio Duque, o plano em curso visava a internacionalização de 60 milhões de hectares do cerrado brasileiro, equivalente a um milhão de quilômetros quadrados. Este enclave seria instalado nos estados de Minas Gerais, Goiás e Espírito Santo até o ano de 1990, com o objetivo de produzir quantidades fantásticas de grãos – principalmente soja, sorgo, milho e trigo.
Essa produção, além de abastecer o mercado interno do Japão, estaria vinculada aos projetos expansionistas do capitalismo japonês, que naquele momento arrancava em busca de novos mercados internacionais.

A Cooperação Brasil-Japão

Toda a infra-estrutura para a produção e exportação destas milhares de toneladas de grãos se daria a partir de grandiosos programas de cooperação entre Brasil e Japão. As denúncias na Câmara Federal lembravam que, no momento exato em que se travavam as discussões parlamentares, sólidas empresas brasileiras e multinacionais japonesas, associadas em torno de uma empresa chamada CAMPO, já iniciavam concretamente o projeto de exploração dos cerrados.
Hélio Duque dizia que a CAMPO era o “verdadeiro cavalo-de-tróia do Projeto JICA”. E as coisas realmente tinham a ver. Por trás da CAMPO, e sustentando o programa de ocupação dos cerrados, estava justamente a JICA, mega-empresa estatal do governo japonês.
Para colocar ainda mais lenha na fogueira, as denúncias de Hélio Duque coincidiram com uma noticia divulgada, meses antes, pelo então secretário de Imprensa do Palácio do Planalto, Alexandre Garcia, que falava sobre uma hipotética imigração de 10 milhões de “asiáticos” para terras brasileiras.
Embora tivesse caído por algum tempo no esquecimento, a noticia voltou com tudo ao centro do debate depois do pronunciamento de Hélio Duque. Logo, ministros de Estado, altas autoridades federais e até a Embaixada do Japão no Brasil se apressaram em desmentir a existência de um projeto tão ambicioso. Atribuíram tudo a isso que chamaríamos hoje de “teoria da conspiração” das oposições.
Mas havia, por trás destes desmentidos, contradições gritantes. As denúncias do deputado Duque estavam fundamentadas num documento de 200 laudas, datado de julho de 1979, que até então circulara apenas por discretas mãos de autoridades da ditadura. O documento era uma proposta de “ocupação racional” das terras do cerrado e fora elaborado pela Japan International Cooperation Agency, a poderosa JICA.

A Sondagem Inicial

Ao longo dos anos de 1978 e 1979, o governo japonês enviou para o Brasil 29 missões de técnicos. Onze especialistas japoneses de diversas áreas, ao lado de um único brasileiro – Mario Behring, que representava o governo de Minas Gerais – se ocuparam da execução final do documento chamado “Estudo Para o Desenvolvimento de Três Estados”, que propunha a ocupação em larga escala daqueles cerrados. A produção de grãos, inteiramente direcionada para a exportação, seria absorvida pelo Japão para alimentar a Ásia.
Oficialmente, o documento era um trabalho encomendado pelos governos de Minas Gerais, Espírito Santo e Goiás para orientar projetos de ocupação das terras ainda virgens daqueles estados. O acordo para a execução do trabalho havia sido firmado entre os governadores daqueles estados e a JICA, em julho de 1978.
Nunca, ao que se sabe, a verdadeira origem deste trabalho recebeu uma explicação plausível. No momento em que o deputado revelou a sua existência, o documento estava sendo analisado pelo Ministério do Planejamento da Presidência da Republica.
Os técnicos do IPEA, órgão ligado ao Ministério do Planejamento, haviam acabado de emitir parecer absolutamente contrário ao dos técnicos da JICA, na proposta de ocupação dos cerrados.
O pessoal do IPEA elaborou um relatório, contestando as propostas da JICA, e foi a partir deste documento que Hélio Duque formulou aquela incomoda denúncia, em abril de 1980.

A Metodologia

O estilo dos técnicos da JICA era coloquial: “Há na região do Centro-Oeste brasileiro uma extensa área inexplorada, com cerca de 1.300.000 quilômetros quadrados de superfície (aproximadamente 3,5 vezes maior que todo o território japonês), estendendo-se pelos estados de Goiás e Minas Gerais. Em vista das características ecológicas de sua flora, esta região é chamada cerrado”. Neste tom, que se estende por mais de 200 laudas escritas originalmente em inglês, os técnicos da companhia japonesa estabeleciam as diretrizes para a ocupação do cerrado brasileiro, no “Estudo Para o Desenvolvimento de Três Estados”.
Eles deixavam claro o caráter ambicioso do projeto: “O presente plano abrange uma importante parte do planejamento nacional do Brasil no século XXI e é ponto de contato geográfico para o futuro desenvolvimento da Amazônia e do Nordeste”. Mas a questão mais esclarecedora diz respeito ao modelo de colonização. Grande parte do documento se refere à necessidade de criar infra-estrutura de mão-de-obra para a ocupação daquelas imensas áreas até então despovoadas. Numa linguagem que beirava o messianismo, os técnicos da JICA falavam em “criar uma nova corrente, objetivando assegurar uma cabeça de ponte para o desenvolvimento social, econômico e cultural” da região.
Os técnicos da JICA propunham que, ao lado de fazendas de grande porte (“a serem exploradas com mentalidade empresarial”) fossem criadas fazendas de médio e pequeno porte “funcionando em sistemas de operação coletiva, sob uma orientação técnica e apoio seguros por parte das autoridades”. Estas pequenas fazendas “causariam uma reação em cadeia que resultará na atração de investimentos e na introdução de novas tecnologias”, que acabariam por acelerar ainda mais o desenvolvimento.
Essas propostas do governo japonês que, segundo Hélio Duque, se configurariam no programa inicial para a implantação do Projeto JICA no cerrado, foram esclarecedoras porque – apesar dos desmentidos oficiais – estavam realmente sendo colocadas em prática pelas autoridades brasileiras.
E foi isso que nós, então jovens repórteres, tivemos a oportunidade de constatar e de revelar pela primeira vez ao Brasil – por inspiração do Herbert de Souza, o Betinho – naquele ano de 1984.

A Busca de Informações

Bancados pelo nascente IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sócio Econômicas), hoje famoso, nós rodamos a região a bordo de um velho fusca verde emprestado do pai do Bernardo, o nosso querido Clério Pelegrini.
O que vimos ali era fantástico. Cidades convulsionadas em transformação. O governo federal colocava uma infra-estrutura pesada voltada para a modernização de ferrovias, a construção de estradas e armazéns e apoio afetivo à pesquisa técnica da agricultura nos cerrados. Ao mesmo tempo, as propostas da JICA contidas naquele documento se consolidavam com a criação da Companhia de Promoção Agrícola, a CPA, mais conhecida ali como CAMPO.
Nos primeiros três anos de atividade, iniciada em 1981, a CAMPO desenvolvera um trabalho rigorosamente dentro dos moldes do documento da JICA. Aliás, a JICA era a principal acionista da CAMPO. E, à frente da CAMPO, como presidente, esteve desde o inicio o engenheiro Paulo Afonso Romano de Santana, secretário geral do Ministério da Agricultura do governo do ditador militar Ernesto Geisel.
Geisel tinha muito a ver com toda esta história. Em 74, ele viajou ao Japão e lá firmou as bases de um programa de cooperação técnica e econômica para desenvolver o sertão de Minas Gerais. No final de seu governo, em 1976, como resultado das negociações, foi deflagrado o Programa Nipo-Brasileiro de Cooperação para o Desenvolvimento Agrícola do Cerrado, o PRODECER.
Através do PRODECER, o Japão se comprometia a investir US$ 250 milhões para desenvolver os cerrados.
A CAMPO, portanto, nascera com o PRODECER.
A CAMPO era formada por duas holdings, uma brasileira e outra japonesa. Do lado brasileiro estava a Companhia Brasileira de Participação Agrícola (a BRASAGRO), com 51% do capital. Do lado japonês, a Japan-Brazil Agricultural Development Corporaton (JADECO), com 49% do capital. Entre as 24 empresas que formam a Brasagro, o Banco do Brasil, Cibrazem, Bamerindus, Banco Econômico, Banco Nacional, Cica, Manah, Eucatex, Solorrico, Brahma, Florestal Acesita, Nutricia e Companhia Vale do Rio Doce. Na JADECO, formada por 48 empresas, destacavam-se a Mitsubishi, o Bank of Tókio, a Central de Cooperativas do Japão, a Mitsui, Ishikawajima e Toshiba. A principal acionista da JADECO com dois milhões de ações, que correspondiam a 50% por cento do capital, estava Japan International Cooperation Agency.
Enfim, apesar de todos os desmentidos oficiais, o Projeto JICA era uma coisa real. Faltava ver, naqueles tempos de contradições nos discursos nacionalistas, a extensão que esta coisa tinha na soberania nacional. O então deputado Ronan Tito (PMDB-GO) alertou logo depois, em brados até mais altos dos que os de seu colega Duque: “Essa margem de segurança de 49% para 51% existente dentro das ações da CAMPO é bastante temerária. Contratos sociais se alteram. Então, mesmo levando em conta apenas a questão do controle acionário, estamos caminhando dentro da faixa de perigo”.

As Restrições ao Capital Estrangeiro

Naquele momento, discutíamos também uma outra coisa. Uma das características fundamentais do capitalismo japonês moderno, que é a de evitar o controle acionário completo das empresas nos paises em que atua. Os parlamentares lembravam, nesse caso, o ilustrativo exemplo da Sharp do Brasil. Na Sharp, o capital japonês subscreve apenas 25% do capital global da empresa, mas reserva o pleno domínio a partir da tecnologia. No caso do Projeto JICA, este sutil controle nas decisões se repetiria, já que é a própria JICA quem liberaria os empréstimos que o governo brasileiro aplicaria na região.

A Repercussão no Cenário Brasileiro

Até os primeiros meses de 1980, antes das denuncias explodirem em Brasília, a perplexidade ainda tomava conta das associações e sindicatos de trabalhadores rurais na região envolvida pelo projeto. Todos assistiam as transformações que agitavam o cerrado e invadiam as cidades de Minas Gerais, sem compreender exatamente o que acontecia.
Mas, quando a história do Projeto JICA começou a tomar forma, o debate mobilizou vários setores da sociedade brasileira em todo o país. Desde a Loja Maçônica do Paraná até a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), passando por quase todas as agremiações de trabalhadores do campo, se manifestaram contra o projeto. Em agosto de 1980, trabalhadores e representantes sindicais de 35 municípios do Triângulo Mineiro e do estado de Goiás reuniram-se em Goiânia para discutir o Projeto JICA.
“Para a implantação do projeto, o governo gastará grande quantidade de dinheiro, expulsando o homem do campo de suas terras, obrigando-o a se desenraizar e migrar para áreas urbanas. Tudo isso com o fortalecimento de grandes empresas e multinacionais na zona rural”, dizia uma nota oficial do encontro, divulgada pelo secretário da Comissão Pastoral da Terra (CPT).
A Pastoral da Terra, com base em relatos de representantes sindicais, denunciava que grandes proprietários estavam utilizando meios nem sempre lícitos para expulsar o pequeno colono de sua propriedade: “Os técnicos rondam as terras de seu interesse, conseguem comprar uma pequena área e depois vão utilizando pressões e outros expedientes para comprar propriedades vizinhas”.
Em fevereiro de 1981, representantes de 27 sindicatos rurais do Triangulo Mineiro, Alto Paranaíba e Sul de Goiás se reuniram em Uberlândia. Em um relatório final, eles alertaram: “Não só o chamado Projeto JICA, mas os outros projetos de desenvolvimento do cerrado estão aumentando assustadoramente o número de trabalhadores volantes na região, achatando seu já reduzido salário. Além disso, a elevação do preço da terra está fazendo com que os pequenos proprietários, sem visão global do que ocorre, acabem vendendo suas fazendas, favorecendo a concentração”.
Os líderes rurais admitiam que, em curto prazo, o projeto traria uma série de mudanças aparentemente positivas para a região – inclusive a valorização do preço da terra e o crescimento rápido das cidades envolvidas. A médio e longo prazos, porém, resultaria numa concentração de terras em poder de grandes empresas agropecuárias, altamente mecanizadas e, por isso mesmo, anti-sociais, numa região onde proliferam os bóias-frias.
Em setembro de 1980, o deputado Ademar Santillo, do PMDB de Goiás, entrou na Câmara Federal com um pedido de instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o Projeto JICA. Santillo afirmava em sua exposição de motivos: “A criação das holdings BRASAGRO e JADECO para formar a CAMPO foi a forma encontrada pelos capitais japoneses para burlar a legislação brasileira que proíbe a aquisição de mais de um quarto da área de um município por estrangeiros. Mas, se associados a brasileiros, podem comprar até toda a área do território nacional”.

As Negativas dos Governos


Desde as primeiras repercussões das denúncias envolvendo o Projeto JICA, as autoridades do governo passaram a negar sistematicamente que os projetos de colonização em curso nos cerrados mineiros tivessem qualquer coisa a ver com as orientações do governo japonês.
O Ministro da Agricultura, Amaury Stábile, veio a público diversas vezes desmentir a existência do projeto. “Isso não passa de uma paranóia oposicionista”, chegou a dizer. Em 11 de novembro de 1980 a embaixada do Japão no Brasil desmentiu oficialmente a existência do Projeto JICA.
No dia 28 de dezembro do mesmo ano, os ministros da Agricultura e Transportes, Stábile e Eliseu Rezende, foram convocados pela Câmara para debater o Projeto JICA. Rezende afirmou que os vultosos investimentos que estavam sendo drenados para a construção de estradas e ferrovias no Centro-Oeste – com o objetivo de “escoar a produção de alimentos para o mercado externo”, como admitiu, não tinham a menor relação com os estudos da JICA. E Stábile foi categórico: “Não existe a figura jurídica do chamado Projeto JICA”.
As declarações dos ministros somavam-se a um emaranhado de cifras e um festival de evasivas. Todas as declarações e respostas às perguntas dos deputados procuravam desvincular completamente as ligações entre os projetos de colonização do cerrado e a presença da JICA. Stábile chegou a afirmar: “A criação da CAMPO é anterior ao estudo da JICA”. Era mentira: o estudo foi iniciado em julho de 1978, mais de um ano antes da constituição da CAMPO, em novembro de 1979.
Dias depois, também convocado pelos deputados, esteve no Congresso o presidente da CAMPO, Paulo Afonso Romano de Santana. Ele afirmou em plenário: “Nunca li e não tenho conhecimento sobre este estudo da JICA”, o que foi considerado na época uma “duvidosa declaração de incompetência”.
Enquanto isso acontecia no Brasil, o Yomiuri Shinbun, um dos mais importantes jornais do Japão, publicava a seguinte notícia: “Estão concluídos os acertos entre o governo brasileiro e japonês para o aproveitamento de 500 mil hectares do cerrado, em diversos estados, entre os quais Minas Gerais”. A notícia acrescentava: “O governo brasileiro pediu ajuda ao governo japonês para se transformar no centro mundial de fornecimento de alimentos”.

A Realidade

Apesar desse labirinto de desmentidos e escamoteações, em agosto de 1982 um segundo documento, que foi chamado de Projeto JICA II, começou a circular pelos gabinetes oficiais e pelos escritórios da CAMPO em Belo Horizonte e Brasília.
O documento foi mostrado pelo próprio Paulo Afonso Romano de Santana à jornalista Celeste Cintra, do Jornal do Comércio do Rio de Janeiro. No documento, a CAMPO previa a expansão do projeto-piloto para uma área de mais de 500 mil hectares. O orçamento inicial para essa segunda fase do projeto, segundo o próprio Romano de Santana, girava em torno de US$ 1,2 bilhão, dos quais US$ 400 milhões seriam captados em forma de empréstimo junto ao governo japonês.
A verdade é que, contradizendo todas as afirmações oficiais, o plano de expansão do Projeto JICA existia realmente. O documento estava pronto. E esta contradição entre o discurso do governo e os fatos, colocava ainda mais lenha na fogueira.


O CERRADO

Quem quer que percorresse, por aqueles dias, alguns palmos de légua das terras do Centro-Oeste, não tinha dúvidas de que alguma coisa mudava de forma acelerada.
A vastidão do cerrado mineiro ou goiano era muito diferente do que vemos hoje. Enormes fazendas inexploradas e entremeadas por pequenas e medias propriedades estavam ali, confinadas à solidão quase completa. Até o final da década de 60, aquele oceano de mato ralo era relegado ao capim, onde os fazendeiros jogavam cabeças de boi e o exploravam de forma absolutamente aleatória.
Na terra do cerrado, onde nasce uma vegetação particularíssima - de aspecto tortuoso e árido – só se consegue produzir qualquer coisa com a utilização de tecnologia e assistência sistemática. Em se plantando – sem calcário, fosfato e adubo – nada dá. Por força da natureza só nasce ali o capim barba-de-bode, o pau-torto, a samambaia, o espinheiro – além de algumas espécies aromáticas e medicinais como o pequi, a mangaba e a raiz do mama-cadela.
O cerrado é paradoxal: qualquer botânico experimentado seria capaz de confundir sua vegetação de folhas brilhantes e grossas e troncos recobertos por cascas e espinhos, com a vegetação típica das regiões secas. No entanto, não falta água no cerrado.
Sua vegetação e sua imensa área continua foram sempre capazes de despertar o interesse e a cobiça dos estrangeiros, como um estigma que pesasse sobre a aparente monotonia de sua paisagem.
Ainda no final do século passado, quando cientistas brasileiros estudavam, deslumbrados, a floresta Atlântica, o dinamarquês Eugênio Warming publicou o primeiro estudo sobre a vegetação do cerrado. Esse trabalho (a “Lagoa Santa”, 1892) foi editado em dinamarquês e só quinze anos mais tarde era traduzido para o português, depois de ter passado por varias edições inglesas e francesas.
O interesse pela vegetação do cerrado foi aguçado com a criação da Universidade de São Paulo, em 1934. Outra vez um estrangeiro, o alemão Félix Ravitcher – que veio para o Brasil assumir o Instituto de Silvicultura da USP – fascinou-se pela vegetação do Centro-Oeste e procurou animar o interesse dos acadêmicos, entre os quais o então estudante Mário Guimarães Ferri, que se transformou num dos maiores conhecedores do cerrado brasileiro.
Na década de 1950, Guimarães Ferri resolvia aquela insólita contradição que parecia condenar os cerrados à exploração primitiva. Ele descobriu que a singular semelhança de sua vegetação com as vegetações de regiões desérticas não era uma defesa contra a falta d’água, e sim um mecanismo de proteção contra o mais sério problema do solo do cerrado: a falta de nutrientes.
As raízes do cerrado têm que lutar para encontrar os nutrientes que o solo arenoso nega sistematicamente. Por isso, as raízes são sempre muito mais longas e vigorosas que toda a parte aérea da planta e chegam a atingir profundidades de até dez metros. Isso, logo de inicio, impõe a primeira dificuldade em que esbarram os agricultores do cerrado: a terra, para ser completamente destocada, exige investimentos volumosos que acabam devorando grande parte dos lucros das primeiras safras.
Mas era a falta de nutrientes que atormentava os agricultores que se aventuraram a cultivar aquelas terras. A fertilidade do solo tem que ser cuidadosamente criada. A rigor, depois do desmate, ela não existe mais.

A Descoberta da Oculta Potencialidade do Cerrado

Apesar de toda a dificuldade inicial, outros dados indicaram sempre a potencialidade dos cerrados. O cerrado brasileiro era naquele tempo e ainda é hoje a maior área continua de terra agricultável ainda virgem no mundo. São cerca de dois milhões de quilômetros quadrados, cem milhões de hectares, dos quais cerca de 70% situados na região Centro-Oeste. Destes cem milhões de hectares, pelo menos cinqüenta milhões são prontamente aproveitáveis. Além disso, devido a suas características topográficas, o cerrado é quase que inteiramente mecanizável, o que permite uma agricultura intensiva em larga escala.
No inicio da década de 1960, o cerrado surpreendeu mais uma vez os técnicos, superando as expectativas mais otimistas. Em testes com diferentes combinações de adubos e calcários, agrônomos paulistas trabalhando em três tipos de solo de cerrado, comprovaram que uma vez corrigidos esses solos atingiam altíssima produtividade, excedendo largamente as médias nacionais. No caso da soja, os agrônomos comprovaram que era possível colher até três mil quilos por hectare, contra mil quilos por hectare que era então a média nacional. A produtividade do milho atingiu seis mil quilos, contra a media nacional de 1,4 mil quilos por hectare.
Por isso, diversos projetos de ocupação do cerrado seriam desenvolvidos a partir da década de 1970, com a participação direta ou indireta dos japoneses, que transformaram o cerrado num imenso laboratório.

O Acordo Básico de Cooperação Técnica Brasil-Japão

Corria o ano de 1961 quando o Estado Maior das Forças Armadas se reuniu em Brasília para discutir um ambicioso projeto de colonização e aproveitamento dos cerrados de Minas Gerais e Goiás.
Naquela reunião ficou decidido: o projeto deveria ser vetado na integra, sem deixar a menor margem para novas tentativas ou investidas, já que representava um sério risco para a soberania nacional.
O projeto havia sido apresentado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros do Japão ao então presidente João Goulart. E pegou de surpresa os governadores Mauro Borges, de Goiás, e Magalhães Pinto, de Minas. Estava respaldado em um estudo realizado pelo técnico japonês Ioshi Matsumoto e assentava seus interesses exatamente nessa área que, naqueles idos da década de 1980, estava sendo ocupada pela Companhia de Promoção Agrícola, a CAMPO.
O governo japonês propunha ao governo brasileiro o financiamento completo de todo o plano de ocupação, o que incluía a construção de uma ferrovia para ligar Minas Gerais ao Porto de Maraú – um pouco ao sul de Ilhéus, na Bahia. Junto com a proposta, foi apresentada também a principal responsável pela execução do financiamento. Ninguém menos que a Japan International Cooperation Agency, a JICA.
Depois do veto das Forças Armadas, a questão do cerrado só viria a ser tratada novamente pelos altos escalões do Governo Federal no inicio da década de 1970. Naqueles anos, todas as atenções estavam voltadas para a aventura patriótica no “Inferno no Verde”: a construção da Transamazônica. Em meio ao clima de ufanismo, o presidente militar Garrastazu Médici selava um aparentemente isolado plano de trabalho conjunto com o governo japonês.
Exatamente no dia 15 de julho de 1971, Médici assinou o Acordo Básico de Cooperação Técnica Brasil-Japão. Este acordo previa a vinda de técnicos japoneses para estudar a economia do país e, quase como um detalhe secundário, também o cerrado brasileiro – conforme rezava uma de suas cláusulas.
No ano seguinte, dirigentes da Cooperativa Agrícola de Cotia, a CAC, inteiramente formada por imigrantes e descendentes de japoneses no Brasil, visitaram fazendas instaladas na região do Alto da Paranaíba, nas beiradas do Triângulo Mineiro. Em seguida, os dirigentes da CAC entabularam contatos com Paulinelli para propor um grande programa de colonização dos cerrados na área.
Eles queriam levar para lá seus cooperados, vindos de experiências anteriores com terras já ocupadas no sul de São Paulo e Norte do Paraná. Dez meses depois das primeiras negociações, em setembro de 1973, estava criado o maior projeto agropecuário de que o Brasil tinha noticia até então: o Programa de Assentamento Dirigido do Alto da Paranaíba (PADAP).
Para dar início ao PADAP, o governo desapropriou uma área de 61 mil hectares de terra e investiu a quantia, astronômica para a época, de mais de um bilhão e duzentos milhões de cruzeiros.
O ato de desapropriação das terras – que se estendeu pelos municípios de Alto da Paranaíba, São Gotardo e Campos Altos – foi também o mais rápido de que se tinha noticia até então na história recente do Brasil. E mexeu com interesses poderosíssimos: os seculares latifundiários do cerrado, donos de forte poder de pressão dentro do próprio governo de Minas.

A Cooperativa Agrícola de Cotia (CAC) e o PADAP

Em março de 1974, começaram a chegar os primeiros cooperados da CAC para a execução do PADAP. Era uma experiência inédita não só em termos de proporções, mas também de organização: vários órgãos privados e governamentais – EPAMIG, EMATER, Rural Minas, Banco do Brasil e o Banco de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais, entre ele – se envolveram no projeto comandado pela CAC.
“Nós não tínhamos nem idéia dos resultados que poderíamos obter”, relatou para nós o diretor do núcleo da EMATER em São Gotardo, Murilo Barbosa Carvalho. “Os agricultores que vieram para cá foram usados como cobaias de uma experiência que, felizmente, foi um sucesso”.
O sucesso do PADAP pôde ser medido em números. A safra 1981/1982 atingiu o maior índice de produtividade média de trigo da agricultura brasileira até então, colhendo 33,7 sacas por hectare.
A CAC partilhava sistematicamente os resultados do PADAP com os técnicos enviados ao Brasil pela JICA. “Nas primeiras fases da implantação, recebíamos visitas dos técnicos da JICA praticamente todos os meses”, relatou o coordenador técnico da CAC em São Gotardo, Luis Kinoshita.
E foi êxito do PADAP que forneceu as bases para o lançamento de um projeto ainda mais ambicioso, dando curso à ocupação do Centro-Oeste. Esse novo projeto foi criado pelo governo Ernesto Geisel. Chamava-se POLOCENTRO.
O POLOCENTRO, quando lançado, pretendia incorporar três milhões de hectares de cerrados com a inversão maciça de capitais, incentivos e abertura de linha de crédito para grandes e médios agricultores.


O POLOCENTRO

O programa do POLOCENTRO era claro: criar áreas de penetração na periferia dos cerrados, para permitir a formação de cidades, escoadouros de produção, concentração de mão-de-obra e, enfim, toda a infraestrutura necessária para um avanço ao interior do cerrado.
Rodovias foram asfaltadas ligando cidades, ferrovias modernizadas, armazéns construídos, minas de calcário e fosfato exploradas. Pelos lados de Mato Grosso do Sul, cidades inteiras surgiram da noite para o dia, em meio a imensos campos de soja e trigo. Na outra ponta do cerrado, em Minas Gerais, cidades até então confinadas à própria solidão foram lançadas no ritmo frenético dos acontecimentos. O POLOCENTRO revolucionou o cerrado brasileiro.
Foi em meio a esse clima que, em 1976, o Presidente Ernesto Geisel viajou ao Japão onde, entre outros programas conjuntos, criou o Programa Nipo Brasileiro de Desenvolvimento Agrícola da Região dos Cerrados (PRODECER) que previa a ocupação do Centro-Oeste brasileiro por capitais japoneses e brasileiros.
O POLOCENTRO já agonizava quando a CAMPO foi criada, como primeiro passo para a implantação do PRODECER. Aos poucos o governo promovia a sua desativação, diminuindo os recursos liberados para o programa.
Assim, se até o final da década de 1970 pareciam obscuros os princípios geopolíticos que nortearam o POLOCENTRO, as coisas se clarearam com a instalação da CAMPO.
O POLOCENTRO foi o último lance de articulação para a entrada em cena dos poderosos capitais japoneses e brasileiros, que iniciariam o terceiro e definitivo grande ciclo de ocupação dos cerrados brasileiros, sob a égide do Projeto JICA.

O PRODECER

Quem viu um dia e guardou na lembrança as imagens da febre que sempre dominou as cidades envolvidas pelos novos ciclos de colonização; quem rodou as cidades que brotaram no norte do Paraná nas década de 1960 ou as novas fronteiras de penetração no Mato Grosso e Goiás nas décadas seguintes; ou mesmo quem rodou a ocupação do oeste da Bahia ainda no início desta década de 2.000, batia os olhos nas cidades mineiras de Patrocínio, Coromandel, Paracatu ou Irai e tinha certeza: iniciava-se ali um vasto ciclo de colonização.
O pacato mineiro daquelas regiões do cerrado era arrancado abruptamente de sua tranqüilidade inabalável e jogado um burburinho de gentes, máquinas e automóveis que invadiam as ruas, numa mistura de barulhos e sotaques vindos dos mais diversos cantos do Brasil.
A paz das cidades secularmente enfiadas sobre si mesmas, com a lembrança ainda viva da colonização portuguesa, se estilhaçava rapidamente e dava espaço a uma realidade que o povo do lugar estava longe de aceitar ou compreender, naquele início de atuação da CAMPO.
Nos idos de 1984, 1985, quando rodamos aquela região por uma segunda vez, a população já não tinha dúvidas sobre a origem de tudo. Para eles, a febre que agitava os intestinos do Centro-Oeste começara na década passada com o Pólocentro. E culminara com a ocupação, iniciada em 1980, dos 62 mil hectares da CAMPO.
As dúvidas, constatamos ali, se concentravam e se avolumavam apenas num ponto: a dimensão real da presença japonesa em torno da ocupação daquele pedaço do território nacional. Para o povo dali, o chamado Projeto JICA ainda era um grande fantasma, do qual quase todo mundo ouvira falar, mas que ninguém vira.
Quando estourou a primeira denuncia do projeto JICA, formulada pelo deputado Hélio Duque, em abril de 1980 na Câmara Federal, a história conquistou rapidamente as manchetes de vários grandes jornais brasileiros.
Segundo Hélio Duque, a Campo era o “verdadeiro cavalo-de-tróia do Projeto JICA”. Afinal, por trás dela, e sustentando esse meticuloso programa de ocupação, estava justamente a empresa estatal do governo japonês.
Essas denúncias coincidiram com uma noticia divulgada pelo então secretário de imprensa do Palácio do Planalto, Alexandre Garcia, sobre uma hipotética imigração de 10 milhões de “asiáticos” para terras brasileiras.
Embora tenha caído no esquecimento, a noticia serviu naquele momento como lenha no fogo dos debates. Logo, ministros de Estado e altas autoridades governamentais, políticos e até a embaixada do Japão no Brasil se apressariam em desmentir a existência de um projeto tão ambicioso.
Havia, no entanto, como vimos, contradições gritantes.

Os Reflexos no Meio Ambiente

Numa tarde de 1982, o fim do mundo se anunciou e tudo ficou escuro. O céu foi recoberto por uma apocalíptica nuvem de poeira e por um instante os moradores de São Gotardo, em Minas Gerais, tiveram a nítida impressão de que o fim dos tempos chegara. Mais uma vez a natureza se perturbava com um fenômeno avassalador, já visto com freqüência nos campos devastados do Rio Grande do Sul em décadas passadas: a erosão aeólica.
Sem árvores para bloquear a mais leve brisa, os ventos fortes viravam um inferno. O vento vinha de longe em linha reta comendo toda a terra que encontrava pela frente. Naquela tarde, o agricultor que havia preparado o terreno para o plantio, já começava a calcular os prejuízos: a erosão eólica arranca a superfície adubada e vai arrastando o que tem pela frente até o limite de sua força. Aquele mundo de terra, levantado vários metros acima do nível do solo, formava uma densa nuvem que recobria tudo.
No final de 1982, São Gotardo via a erosão aeólica pela terceira vez. Era um sintoma assustador dos desequilíbrios ecológicos provocados pela devastação de 62 mil hectares de mata do cerrado para execução do Programa de Assentamento Dirigido do Alto Paranaíba, o PADAP.
Os ambientalistas alertavam que o cerrado não resistiria ao desmatamento indiscriminado para execução de grandes projetos. As finas camadas férteis, diziam eles, se negarão às sementes se não forem acalentadas por um trabalho de preservação permanente, através da rotatividade de culturas e de cultivos em escalas mais modestas.
Pelo sim e pelo não, dois anos depois das primeiras grandes erosões eólicas na região, os técnicos envolvidos na ocupação dos cerrados passaram a cumprir com rigor a determinação, desrespeitada até então, de preservar pelo menos 20% do terreno ocupado pelos campos de cultivo. O que eles não conseguiam calcular é o tempo que seria necessário para repor árvores que formassem novamente barreiras contra o vento e impedissem a perpetuação da erosão eólica.
“Quando lançaram o PADAP não houve nenhuma preocupação com o caráter ecológico do programa. A área foi devastada quase de um dia para o outro. Os colonos montavam em seus tratores e partiam feitos loucos, arrancando qualquer pedaço de mato que encontrassem pela frente”, relatou para nós, em São Gotardo, um técnico da EMATER.
A cidade mudou muito naqueles tempos. E a lição dos problemas ecológicos que vieram com a devastação não foi a única que se pôde extrair do PADAP. O programa alterou as configurações mais singelas da pequena São Gotardo. Em menos de dez anos, a ocupação em larga escala do cerrado alterou mais profundamente a fisionomia da cidade do que os séculos de presença do colonizador português ou das oligarquias mineiras.
Quando chegamos ali, a rodoviária fervilhava de gente. O trânsito urbano acabara de ser reestruturado, com amplas e modernas vias de mão única – incomuns nas cidades do interior. O comércio foi recheado com opções que os moradores antigos da cidade sequer imaginavam existir e, apesar da população reduzida, São Gotardo já se gabava de possuir uma frota de táxis dotada de sofisticados modelos zero quilômetro.

Cooperativa Agrícola de Cotia (CAC): O Agente da Transformação

Quando a CAC chegou em São Gotardo, no final de 1973, um hectare de terra valia 900,00 cruzeiros, um valor irrisório para os padrões da época. Segundo os antigos, aquelas terras não serviam para nada a não ser engorda de boi. Menos de dez anos depois, no inicio da década de 1980, já não existiam terras disponíveis no município, e um hectare não saía por menos de 300 mil cruzeiros.
De qualquer maneira, trabalhar a terra do cerrado não era tarefa para a qual bastava apenas o esforço do agricultor: eram necessários investimentos maciços, que só começavam a ser compensados após a segunda ou terceira safra. Por isso mesmo, só era possível ali uma agricultura de grupos fortes.
Assim, desde cedo, os lavradores da região, acostumados às culturas de subsistência, foram vendo que a nova agricultura trazida pela CAC escapava à sua compreensão. Surgiam coisas de que eles nunca ouviram falar, como assistência técnica, fosfato, calcário, silos, tratores, colheitadeiras, soja e japoneses.
Um pacto surdo entre a CAC e a Secretaria da Agricultura de Minas Gerais, na época da instalação do PADAP, estipulava que pelo menos 80% dos colonos fossem indicados e selecionados pela própria cooperativa, a partir da inscrição de filhos e parentes de seus cooperados originários do sul do país, todos imigrantes japoneses ou descendentes nisseis.
Assim, desde o primeiro momento as populações da região ficaram à margem do processo produtivo, incorporado a ele como mão-de-obra contigenciada. Com a especulação no preço da terra, a maioria foi vendendo suas pequenas propriedades e se acumulando na periferia da cidade. A pequena agência do IBGE em São Gotardo registrou estas mudanças em seu censo de 1980: a população urbana aumentou em 66% por causa das migrações da zona rural para a urbana.
Vilas luxuosas no melhor estilo das grandes cidades iam sendo construídas distantes do centro, ocupadas pelos funcionários do alto escalão da CAC e pelos seus colonos mais privilegiados – formando um fechado núcleo oriental com suas festas, clubes e escolas segregadas, longe da cidade. Os hotéis foram ampliados para receber os viajantes e representantes comerciais que farejavam ali o dinheiro correndo. Restaurantes e bares para os novos moradores de São Gotardo iam sendo abertos, junto com butiques. A agência dos correios foi abarrotada de correspondência internacional para distantes japoneses, onde os migrantes deixaram seus familiares, há muitos anos.
Logo na estrada da cidade, o armazém da CAC cristalizava as transformações que ocorreram. Cabiam ali 30 mil toneladas de grãos, armazenados a espera do melhor preço para comercialização. Entre a maioria dos agricultores, tudo circulava em torno da cooperativa.
Não restava ao colono outra alternativa senão seguir os padrões e determinações da CAC. São Gotardo registrou, em 1982, o caso de um cooperado brasileiro que se recusou a comprar fertilizantes da CAC e foi adquiri-los de um comerciante amigo, em Patos de Minas.
O resultado foi que a cooperativa não comprou produção dele naquele ano e – sem uma estrutura particular de comercialização – o cooperado teve que arcar com as despesas do frete para escoamento da produção, além de articular por conta própria os preços e cotações do produto, o que a CAC fazia para seus cooperados através de sofisticados sistemas de mercantilização centralizados em sua matriz, em São Paulo. Para o colono, o prejuízo total foi o preço que pagou por desafiar o surdo monopólio da cooperativa.

Dicotomia: Novo X Tradicional

Distantes de todas as sofisticações, os trabalhadores rurais de São Gotardo viviam de vender seu trabalho e penetrar na modernidade que o novo ciclo e econômico trazia. A vida dos trabalhadores dali, antes da chegada da CAC, não era melhor: a grande parte da população masculina da cidade deixava São Gotardo nos períodos de colheita e ia vender sua força de trabalho eventual em centros maiores, como Uberlândia e Uberaba. Acumulando algum dinheiro, voltavam à terra natal com o suficiente para pagar as contas do empório e tocar a vida por mais alguns meses. Com as mudanças e a abertura das novas fazendas, o trabalho começou a sobrar em São Gotardo.
E, como a mão-de-obra passou a ser escassa, os proprietários das glebas do PADAP começaram a segurar os trabalhadores para a época de maior pique na lavoura, contratando os antigos bóias-frias para período de tempo integral.
Assim começou a sobrar trabalho para todos.
Surgia ali uma nova relação de trabalho e de vida rural, totalmente diferente das relações tradicionais até então verificadas no País.
Homens e mulheres que deixaram a roça para se aventurar na cidade eram, certamente, trabalhadores de um novo tipo. Eles moravam na cidade e iam à lavoura apenas para cumprir as horas de trabalho. À noite voltavam para as luzes de São Gotardo e inundavam os botecos ou igrejas da cidade, numa vida comunitária extremamente avançada em relação a antiga solidão dos latifúndios.
O mito das relações harmoniosas entre o homem e a terra também descambou, na esteira do novo processo. O bóia-fria dos cerrados mineiros já era um agricultor habituado ao rugido dos tratores, ao trato com substancias químicas e de relações profissionais menos degradantes que a serviçal relação com os velhos fazendeiros.
À noite, depois de assistirem às aulas em qualquer um dos cursos noturnos que existiam pela cidade, os jovens trabalhadores rurais da região – nas lanchonetes e bares do centro – poderiam ser confundidos com qualquer operário ou escriturário dos centros urbanos maiores. Plasmou-se ali uma nova mentalidade, mais aberta à contemporaneidade.

Migração: Sucessos e Desequilíbrios

O Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Patrocínio foi surpreendido por estranhos casos de tráfico de trabalhadores no começo de 1980. Proprietários rurais da cidade estavam buscando bóias-frias em lugares com excesso de mão-de-obra desempregada, como o Norte do Paraná, onde a mecanização da lavoura em curto espaço de tempo criou legiões de desempregados nas periferias das cidades.
No Norte do Paraná, historias passadas nas lavouras de Minas Gerais corriam de boca em boca. A possibilidade de emprego havia transformado Minas num novo Eldorado, de onde se contavam casos de família inteiras que acertaram a vida apenas com alguns meses de trabalho.
Mas, em pouco tempo, histórias mais estarrecedoras também começaram a surgir, sobre casos do pavor que se abateu sobre trabalhadores que foram e não conseguiram mais voltar. Acontecia assim: caminhões vindos de Minas estacionavam de manhã em pequenas vilas periféricas onde se concentravam os bóias-frias, no Norte do Paraná. Um capataz de fazenda dizia procurar gente disposta a trabalhar em outro Estado: prometia emprego fixo, bem pago, transporte gratuito da mudança, se houvesse, além de alimentação, moradia, estabilidade, e assim por diante.
Famílias inteiras embarcavam às vezes. Chegavam em Minas Gerais e depois de alguns dias de trabalho sentiam o peso da realidade: eram acomodados em tendas, comiam mal, trabalhavam o dia todo e quando reclamavam seu direito de ir embora e pediam as contas, eram informados das dividas que haviam contraído com a mudança, com a comida distribuída nos primeiros dias. A maior parte dos trabalhadores acabava ficando durante todo o período da safra, para poder voltar depois. Outros, desesperados, procuravam o sindicato para pedir ajuda.
Foi assim que o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Patrocínio se viu envolvido com aqueles casos inéditos em sua história. Tudo aconteceu porque, atraídos pelos financiamentos do POLOCENTRO, fazendeiros do sul abriram fazendas atrás de fazendas na região. Mas logo depararam com a falta de mão-de-obra em épocas de colheita. Alguns resolveram o problema da forma mais barata, através do trafico de bóias-frias.
Aos poucos a periferia de Patrocínio foi inchando, não só com os trabalhadores que vieram de outras regiões, mas também com ex-pequenos proprietários que venderam suas terras e ficaram sem ter para onde ir.
Mas os barracos e a miséria na periferia não foram as únicas modificações que o POLOCENTRO imprimiu no ritmo da cidade. Gente enriqueceu, correu muito dinheiro pelas ruas, um comércio de prestação de serviços voltado para uma classe média rural ascendente floresceu, o trânsito estufou, apareceram os primeiros casos de criminalidade social e a vida da cidade nunca mais foi a mesma.
A história daquela pequena cidade de Patrocínio, fincada a leste do Triângulo Mineiro, na beira da ferrovia, foi um dos exemplos mais marcantes das profundas transformações que se operaram no coração do cerrado.
A linha divisória entre o passado e o presente era, por aqueles dias, tênue e indecifrável. A angústia da paz perdida se misturava com a esperança dos frutos positivos que o progresso certamente levou até lá, numa estranha perplexidade que arrancava da calma até o mais desavisado dos mineiros.
Patrocínio, até a chegada dos fazendeiros que vieram na maré do POLOCENTRO, era uma cidade afundada na própria memória, sólida como um século: resistiam ali os velhos casarões coloniais, os enormes tijolos de barro, os retratos ancestrais nas salas das casas, e ainda aquele estranho arame de farpas sólidas que era importado de Portugal para cercar as fazendas dos antigos latifundiários.
Depois, desde o início das transformações, fisionomias de todos os cantos do Brasil passaram a se misturar nos botecos e nas grandes vilas de casas populares recém-construídas. O viajante mais desavisado que chegava por lá em algumas épocas do ano corria sempre o risco de não encontrar vaga nos quartos dos hotéis, apesar das ampliações que quase todos promoveram em suas dependências.
Por uma noite, em 1982, nós nos hospedamos na pequena Pensão Minas Gerais administrada por três velhas mulheres que serviam, no almoço, uma famosa abóbora. Da soleira da porta, observávamos um vasto descampado, descortinado por trás das últimas ruas da cidade.
Dois anos depois, quando voltamos, as mulheres não estão mais lá. Partiram com medo dos assaltos e sem entender aquela multidão de novas caras que começavam a se despejar em busca de acomodações. Técnicos de linha férrea modernizando a ferrovia, peões de fazendas, construtores, todos formavam uma freguesia ruidosa demais para os nervos das velhas senhoras. E da soleira da porta só se podia ver, em 1984, o telhado de uma enorme indústria, que misturava seu barulho sincopado com o ruído quase ensurdecedor dos automóveis que se movimentavam até muito tarde da noite.


OS INVESTIMENTOS JAPONESES E BRASILEIROS


No inicio de 1982, o governo brasileiro anunciou que estava investindo recursos, juntamente com o governo japonês, nas obras de ampliação do Porto de Midanao, nas Filipinas, e na construção do Porto de Orita, no sul do Japão.
Publicada com a singeleza das notícias sem importância, num canto qualquer de página dos principais jornais brasileiros, a informação tinha um significado que ultrapassava de longe todas as expectativas acerca dos interesses envolvidos no Projeto JICA.
Já em 1980, diante do Congresso Nacional, em Brasília, o ministro dos Transportes Eliseu Rezende, explicava a importância estratégica do Porto de Midanao para o futuro das exportações de alimentos brasileiros rumo ao mercado do Oriente. “Recebemos recentemente um navio de 150 mil toneladas, que saiu daqui com 72 mil toneladas de soja e o restante com minério de ferro. Navios desse porte são ideais para transportes a longa distância, pois barateiam estupendamente os fretes. No entanto, esse navio não teria condições de atracar e descarregar no Extremo Oriente, simplesmente porque lá não existem portos para receber navios com grandes carregamentos de grãos”, explicou ele. Era aí que entrava o investimento no Porto de Midanao.
Já pelos idos da década anterior, o Brasil vinha sendo sondado por altas fontes do governo japonês, que queriam investimentos conjuntos para bancar a reforma e a ampliação do Porto de Midanao. Mas, na época, a “Keidan Ren”, a confederação das indústrias japonesas, começou a se opor à ampliação do Porto de Midanao.
A “Keidan Ren” queria que os recursos fossem investidos na construção de um grande porto em Orita, uma província do sul do Japão. Esse porto demandaria investimentos muito mais vultuosos, mas em compensação cumpriria as mesmas funções estratégicas do Porto de Midanao, com a vantagem de se localizar dentro do território japonês.
Tanto em um caso como em outro, diante da mesa redonda no Congresso Nacional, Eliseu Rezende foi taxativo: “Não haverá nenhuma participação financeira brasileira para a construção e reforma desses portos. Nem do governo e nem, no nosso entendimento, da iniciativa privada do país”.
Apesar disso, um ano e pouco depois, o Brasil anunciava os investimentos, tanto para a reforma do Porto de Midanao, como a construção do porto de Orita.
A reforma e a construção desses portos deixavam antever a gigantesca sombra dos planos japoneses para o destino dos grãos a serem produzidos no cerrado brasileiro. Segundo insistentes denúncias de Hélio Duque, o Japão já estava viabilizando a implantação de uma Bolsa de Cereais em Tóquio, para repassar e vender produtos agrícolas, competindo com a toda-poderosa Bolsa de Cereais de Chicago.
Por tudo isso, as insistentes afirmações da diretoria da CAMPO dizendo que “apenas o excedente da produção” seria exportado, soavam completamente falsas.


A COLÔNIA JAPONESA: ANGÚSTIA E SURPRESA NA INTEGRAÇÃO

A velha viúva mineira trabalhava na fiação do algodão cru, em máquinas de madeira velha do tempo do Império e, pelo menos uma vez por mês, deixava sua casa, nos confins do cerrado mineiro, para vender o que havia produzido na vizinha cidade de Patos de Minas. E voltava sempre da cidade com novidades para contar aos filhos que viviam ao seu redor.
Rugas esticadas pelo sol, coluna curvada pelos anos, naquela tarde em que conversamos com ela, debaixo do calor infernal da beirada do asfalto, a velha viúva voltava para casa mais uma vez. Da cidade, além de se horrorizar com o preço das coisas, trazia uma noticia burlesca: pela primeira vez em sua existência pacata havia visto de perto um japonês.
Ela já havia visto coisas esquisitas em Patos de Minas. Vira a televisão pela primeira vez, luzes, carros modernos e uma vez viu até um casal de anões andando pelas ruas. Mas um japonês não havia visto nunca.

A Imigração Japonesa

A história da imigração japonesa começou no início do século passado, quando 165 famílias aportaram em Santos, a bordo do legendário Kasato Maru. Substituindo o trabalho escravo nas grandes fazendas de café do interior paulista, a primeira leva de imigrantes japoneses foi obrigada a ceder diante da evidencia: não conseguiriam, tão cedo, juntar o dinheiro para financiar a viajem de volta.
Um agravante: os outros países do mundo, entre os quais os Estados Unidos, proibiram a entrada de japoneses em suas fronteiras, alegando dificuldades de integração e assimilação. Por isso, até 1941, quando a entrada de japoneses no Brasil foi suspensa, cerca de 190 mil japoneses da zona rural aportaram em terras brasileiras. Foi só depois da II Grande Guerra, em 1953, que as novas levas de japoneses atracaram no Brasil com uma outra realidade. Estes vinham para ficar. Até 1962, quando a imigração foi novamente suspensa, haviam chegado 60 mil pessoas, contra 190 mil do primeiro período.
Grandes setores desta comunidade viveram sérios conflitos de adaptação com a sociedade brasileira, durante décadas. Esse conflito assumiu configurações nítidas no processo que de ocupação dos cerrados de Minas Gerais. Em São Gotardo, no início da década de 1980, onde a presença japonesa foi mais antiga, os agricultores do PADAP formaram uma colônia fechadíssima. Moravam num bairro isolado, com escolas, clubes e centros de reuniões próprios, evitando todo e qualquer tipo de contato mais estreito com os brasileiros.
Não era raro que essa posição despertasse a ira de alguns setores da cidade. Um técnico agrônomo que, por imposição do oficio, era obrigado a visitar freqüentemente as terras dos colonos japoneses, dizia: “Eles são sujos”, para depois desfiar uma extensa oratória de insultos ao acaso, dando continuidade a uma mística que não era novidade no relacionamento de nisseis e brasileiros.
Apesar de tudo, a necessidade de integração já absorvia as preocupações de vastos segmentos da colônia nipo-brasileira.

A Integração dos Japoneses na Comunidade Local

Mas a verdade é que aquela realidade, em que nipo-brasileiros serviam aos interesses do capitalismo japonês, convivia com uma outra realidade, em que batalhões de nisseis se debatiam numa crise de identidade em busca de um contato mais estreito com a sociedade brasileira.
E, se a história já era, por aqueles tempos, fartamente discutida em alguns círculos do sul do País, ainda estava longe de ser assimilada pelo homem comum, pelo lavrador e pelo pequeno comerciante daquelas regiões do cerrado onde o japonês começava a chegar.
Um barbeiro que cortava indistintamente o cabelo de japoneses e brasileiros à beira de um riacho fétido na periferia de São Gotardo sentenciou para nós: “Foi Deus quem mandou esses japoneses até aqui”.
Certamente não foi. Nem o diabo.
Os japoneses que participaram daquela ocupação do cerrado não passavam de um segmento da sociedade brasileira que encontrou grandes dificuldades para se relacionar com o país. E, com certeza, muitos deles serviram como instrumento de um processo que nem eles mesmos conseguiram dimensionar.

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