domingo, 6 de setembro de 2009

... Zeca sentiu-se confortavelmente em paz. Levantou-se da cadeira, caminhou lentamente até o bebedouro, bebeu três goles de água gelada e ainda engoliu um café antes de voltar ao computador. As sombras haviam sumido e a paz que o acompanhou por toda a tarde só foi quebrada por uma apreensão discreta que se apossou dele no final do expediente.
Foi em paz, portanto, que ligou o motor do automóvel e arrancou pela rua estreita até o alto da Avenida Paulista. Cruzou as duas pistas e estacionou o carro ali mesmo, numa rua transversal, decidido a fazer o resto do percurso a pé. A decisão viera de um desejo recôndito, inexplicável: começava anoitecer e os holofotes já estavam acesos no alto das torres e dos prédios da avenida. As luzes se projetavam, fantasmagóricas, sobre as nuvens baixas que cobriam a cidade. Os automóveis, como sempre para Zeca, pareciam voar e ele, neste momento, pensa em quem, dentro deles, vai ao cinema, ao teatro, canta, descanta, pensa na vida ou vai descansar.
Zeca, desde que chegou a São Paulo, apaixonou-se pelas cores e pelo movimento desta avenida no início da noite. Sentia-se nela como quem viaja por planetas desconhecidos. Só nesta hora, povoada por luzes, carros, fumaça, ônibus, pressa, buzinas, centenas de pessoas cruzando rapidamente o mesmo espaço; só nesta hora Zeca sentia-se definitivamente arrancado de todas as raízes do seu passado, a fazenda, o dia de sua morte, o fim do mundo, o lugar onde nasceu. E assim andava pela calçada como quem flutua por cima dos espigões, das antenas, dos homens, das nuvens.

De modo que, naquele início de noite, Zeca caminhava e viajava por planetas distantes quando ouviu as primeiras sirenes. Logo viriam outras e muitas outras. Ele as procurou com o olhar mas sua visão foi momentaneamente ofuscada pela luz de um dos holofotes que girava no topo do edifício.
E, por um segundo, o que viu foi apenas a sombra:

DE NOVO NA TELA, A REPETIÇÃO DO DESENHO 4, QUE APARECE ACIMA

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